terça-feira, 17 de novembro de 2009

A Medicina está morrendo!

Era um dia chuvoso e por isso os cuidados de Romeu foram redobrados ao sair de casa com sua motocicleta. Pelo seus cálculos, saindo de casa com antecipação de duas horas, poderia chegar ao seu trabalho com tempo suficiente para trocar as roupas molhadas, tomar um café quente e, enfim, iniciar sua jornada como médico do Hospital de Urgências. Mas Romeu não chegou ao hospital para trabalhar, chegou como paciente, vítima de acidente, em politraumatismo sério.
Romeu não perdeu a consciência, o capacete o protegeu. Pode perceber que o socorro do SAMU não tardou mais que 5 minutos, por mais que quisesse dizer que estava bem, somente conseguiu responder a três perguntas básicas do paramédico, antes que um colete cervical se antecipasse à tábua de madeira fenestrada que servia de anteparo rígido ao colchão macio da maca que o levara até a ambulância. Antes de chegar ao pronto-socorro, todo o seu corpo havia sido inspecionado e ao menos uma fratura já imobilizada _ a do ante-braço esquerdo, mas clinicamente tinha a suspeita de fratura do fêmur direito, bem como fortes indícios de ruptura do baço.
A chegada ao hospital não foi diferente, salvo a surpresa dos colegas que o receberam, que logo se esvaiu ante a necessidade de atendimento às necessidades do corpo que clamava cirurgia de urgência.
Romeu em momento algum sentiu-se tranquilo. Estava angustiado, tinha vontade de chorar de susto e de raiva, se preocupava com sua esposa e com seus pais, não tinha confiança na resposta deles ao telefonema da Assistente Social, mesmo sabendo que ela falaria a verdade, que ele estava bem.
O traumatologista que conduzi o caso aproximou-se dele para dizer que estava tudo tranquilo, Galvão, excelente cirurgião, logo chegaria para fazer a esplenectomia, enquanto ele aproveitaria o tempo cirúrgico para fixar a fratura do antebraço, já que o fêmur estava intacto.
Romeu mais uma vez tentou falar do que passava dentro de si, não conseguiu pela segunda vez e nem pela terceira e quarta vezes, quando Galvão chegou com seu companheiro de futebol e anestesiologista, Carlos. Somente ouviu a pouco estimulante frase, "Vida de paciente não é fácil, não é Romeu?"
E Romeu pode ver o que acontecia com seus pacientes em todos os plantões, mais ainda, em todos os momentos, com todos os pacientes de todos os médicos. Antes que o anestésico o fizesse ter o último suspiro consciente antes do ato cirúrgico, Romeu teve a convicção que o modelo de atendimento precisaria mudar, ouviu uma voz forte em desespero e agonia, era a voz da Medicina, por sua filhas Panacéia e Hígia, a Medicina que estava a morrer, o homem a estava matando.

O Cirurgião de Lisboa

Em Lisboa, para as IV Jornadas de Medicina e Espiritualidade, tive oportunidade de conhecer vários médicos da nossa terra-mãe, entre eles João, um afamado cirurgião de Lisboa.
Após minha conferência, me cumprimentou efusivamente e em meio cochicho, meio voz alta me disse, "Não sabes como é o sistema de saúde daqui, ó pá!"
Ao descrever o exemplo da mulher que teve colecistite calculosa diagnosticada por um médico, o pré-operatório solicitado por outro e a cirurgia realizada por um terceiro, achou meu amigo cirurgião que seria tomado por espanto.
"Em quanto tempo ela foi operada, João?"
"Em pouco menos de um mês, ó pá!"
"Ah João, não tem lugar para mim em Lisboa? Aprenderei cirurgia e serei o cirurgião de Lisboa, porque no Brasil ela demoraria no mínimo 3 meses para ter esperança de um dia ser operada pelo SUS!"
 
Yoomp