quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O Verdadeiro Culpado

           Os olhos de Beatriz na tarde de dois de julho eram feitos de lágrimas, cristalinos de dor e decepção, juntavam-se aos olhos de centenas de milhões de brasileiros a lamentarem a precoce eliminação da seleção da Copa do Mundo.
            Milhares de análises foram feitas, o patente desequilíbrio do time contrastante com o bom futebol do primeiro tempo nunca terá explicação, mas logo foi apontado um culpado, Felipe Melo. É meu dever de brasileiro pedir a todos, não culpem Felipe Melo, a derrota do Brasil tem um responsável e o nome dele é Mick Jagger.
            Muitos anos atrás fui à biblioteca da PUC-Rio em busca de um tesouro, um livro esgotado de Lèvi-Brhull. Com a devida orientação da bibliotecária, percorri corredores formados por estantes repletas de livros até chegar a uma mesa no fundo do grande salão, lugar iluminado por pequena janela próxima do teto muito alto da edificação, o que me fez sentir como em um filme holiwoodiano, um verdadeiro Indiana Jones do sertão em pleno litoral brasileiro. Mas atrás daquela mesa estava alguém maior que o próprio Jones, talvez a fonte oculta de inspiração de Spielberg para a criação do personagem.
            Frei Extensum, esse era seu nome, pelo menos foi como se apresentou, inicialmente ralhou comigo por desejar ler um autor não mais lido, apenas citado e impôs-me uma sabatina para saber se deveria ou não liberar-me a obra. Concluiu que eu não era a pessoa indicada para aquele livro, mas me convidou para um café em uma minúscula sala, fora do prédio da biblioteca, no fundo de pequena capela dentro da PUC.
            O café frio de cafeteira devia ter uma dezena de horas, mesmo assim o frei o apreciou com gosto e tive que aprender a contorcer os músculos faciais para transformar a expressão de asco em satisfação mas enquanto isso me contou sua vida de antropólogo entre os nativos malawee, na Tailândia e como ele aprendeu algo mais que Lèvi-Brhull. Pegou um livro com capa de couro, na verdade um caderno de anotações, mas antes contou-me sobre uma tradição daquele lugar distante e exótico. O Supremo Imperador do Mal possuiria agentes na Terra que teriam por objetivo atender aos pedidos que os homens não ousariam pedir a Deus. Esses agentes seriam reconhecidos pelo jeito peculiar de suas faces e de seus sorrisos, que os tornam à feição do curinga dos baralhos.
            Enquanto me contava a tradição e saboreava seu café frio, o frade sorria muito e me disse ao final, com voz muito grave, que apenas deveria revelar essa história quando muitas lágrimas corressem por obra desses agentes do mal. Abriu o caderno com capa de couro e mostrou alguns desenhos e formas geométricas para reconhecer esses agentes, me passando as medidas exatas. De imediato, no exercício em que fui iniciado pelo frei antropólogo, logo reconheci os dois principais agentes na Terra, William Dafoe e Mick Jagger.
            Copa do Mundo da África, experiência vibrante para milhões de adolescentes que eram crianças em 2002, esperança de título para o Brasil. Antes do jogo das quartas com a Holanda, na platéia de Estados Unidos e Gana, a imagem de Mick me fez tremer, ele estava lá, na África do Sul, certamente para espalhar o mal na forma de azar, desequilíbrio, derrota!  Ao lado do presidente Clinton (uma vez presidente, sempre presidente!), seu sorriso contagiou de azar o selecionado americano e foram derrotados pelo selecionado africano.
            Liguei para treze amigas católicas devotadas, todas elas com idade superior a setenta anos e pedi que rezassem treze terços até a sexta-feira, seria uma forma de neutralizar a possibilidade de Mick torcer para o Brasil e com isso contagiar também  nosso selecionado. Uma delas não me atendeu, estava adoentada e substituta não havia naquele instante porque a próxima da lista completaria setenta anos no dia 11 de julho. Frei Extensum me ensinou que para neutralizar os efeitos desses agentes, apenas treze senhoras idôneas com setenta anos completos poderiam rezar os treze terços de salvação do mal malawee!
            Me desculpem, irmãos brasileiros, eu bem que tentei mas não foi possível. A maldição de Mick Jagger nos venceu e perdemos a chance do hexacampeonato de futebol. Mas tenho agora enormes esperanças, ontem à noite, com voz débil pela idade quase centenária, me ligou frei Extensum, tocado de extrema felicidade, Mick Jagger e William Dafoe participariam ativamente da campanha eleitoral brasileira, torcendo vibrantemente por Dilma Roussef, Deus seja louvado!

Histeria, experiências em um grupo mediúnico


           M., sexo feminino, 27 anos, casada, dois filhos. Trabalha como secretária em clínica médica, foi trazida ao Grupo das Terças, equipe de desobsessão do Sanatório Espírita de Anápolis, por seu empregador, médico, cirurgião plástico, espírita. Relatava história de início súbito, há menos de dois meses, quando passou a não apenas perceber vultos como perder o controle de si e “ser tomada”pelo espírito de uma prima desencarnada. Durante todos os dias de trabalho, nos últimos dois meses, seu patrão esteve mobilizado em auxiliá-la, não se detendo inclusive em abandonar o consultório para tentar socorro em casas espíritas que mantinham atendimento durante o horário comercial.
Em nosso grupo, quando diante dos médiuns, ao início do passe, logo modificava sua voz, contorcia os membros superiores e falava de modo aflito, por vezes agressivo, discurso de poucas palavras, que se resumiam em “Eu vou matá-la, vou trazê-la para cá”. Observei detidamente seu biótipo, seus movimentos corporais, seu discurso quando “incorporada”. Ao final da reunião, seu rosto era suave mas seu olhar não escondia a sensação de prazer realizado.
            Ao ser questionado pelo colega médico e patrão de M. sobre o caso por ele considerado como mediunidade ostensiva, recomendei o uso de ansiolíticos e psicoterapia. Confirmei com ele a impressão inicial que M. estava com problemas conjugais sérios. Troquei o diagnóstico de mediunidade pelo de Manifestações Somatoformes, porque o termo Histeria soou agressivo a M.
            Na análise com o grupo, do caso de M. realcei os seguintes pontos que me indicaram o diagnóstico que fiz do caso a nós apresentado:
·      M. iniciou suas supostas manifestações mediúnicas de modo súbito mas no ambiente de trabalho, onde o patrão era espírita;
·      Estava com problemas conjugais sérios, sem apoio de sua família de origem para resolvê-los;
·      Em cada manifestação tida como mediúnica, recebia total atenção do patrão, que se estendia para além do horário de trabalho;
·      M. deu passividade apenas quando estava sozinha na sala de passes; sua manifestação se iniciou com movimentos de contorção do braço esquerdo, hiperpnéia, voz inicialmente gutural e poucas palavras. Não havia discurso lógico na passividade mediúnica, não haviam elementos para identificação de uma personalidade, mas fragmentos de discurso sem espontaneidade.
·      Havia verdadeiro prazer por parte dela ao final do passe, como se agradasse ao patrão.
As manifestações chamadas anteriormente de histéricas, atualmente agrupadas na classe das manifestações somatoformes, ainda confundem grupos mediúnicos, porque podem ocorrer em pessoas que inconscientemente buscam um ganho pessoal ante várias frustrações, bem como podem também estar presentes em casos de obsessão espiritual.
A casuística do Grupo das Terças, em casos de histeria, nos últimos dez anos, se deu apenas com casos a nós encaminhados como Obsessão ou “Mediunidade”.
Foram 4 casos de pessoas da comunidade, 2 de pacientes internados no Hospital Espírita de Psiquiatria. A distribuição entre os sexos foi 5 casos de mulheres e 1 caso de homem.
O caso masculino era de paciente com diagnóstico de Esquizofrenia Paranóide, internado para tratamento; os casos femininos não tinham diagnóstico psiquiátrico, exceto um caso de Dependência Química.
Dos casos da comunidade, todos eles iniciaram após sensação de perda, real ou imaginária, em 3 deles havia a suposta manifestação de um parente morto que queria levar sua vítima, mas sem que houvesse manifestação plena ou uma personalidade pudesse ser identificada. Em 1 caso, a manifestação era teatral, onde a pessoa relatava o que supostamente via no plano espiritual.
Dos casos da comunidade, apenas o que relatava visões do plano espiritual se engajou no movimento espírita e hoje trabalha como médium passista em uma casa.
Como conclusão, a histeria é diagnóstico infreqüente em nosso grupo, por trabalhar dentro de Hospital especializado. É manifestação incomum de mediunidade, suas manifestações são seguidas de ganho pessoal do sujeito, quer pela satisfação em poder agradar, quer pela mobilização que consegue atingir.

Feliz por um dia


           Hélio era pessoa de poucas palavras e quando as tinha, engolia o final de cada uma delas de modo que era praticamente incompreensível a sua fala. Talvez para compensar sua dificuldade, antecipava-se sempre às necessidades dos outros, assim não era preciso falar nada além de agradecer os inúmeros "muito obrigado" que ouvia o dia todo. Hélio também tinha uma história clínica, obesidade grave e doença coronariana que o coroara com pontes de safena _ interessante como aqueles que são submetidos a cirurgia de revascularização miocárdica apresentam o procedimento adotado de forma a dar a alteridade de um nome, 4 safenas e 1 mamária é o nome mais comum.
            Voltando à história clínica de Hélio, que era o que me interessava, avaliação detalhada de um cirurgião de cabeça e pescoço revelou um problema simples na conformação do maxilar inferior, a antiga mandíbula, que provocava falha na abertura da boca quando ele falava, problema que a Fonoaudiologia resolve em seu cotidiano, sem muitas dificuldades. Por que Hélio não teve esse benefício?
            "Nem sei o que profissão é essa doutor, sou homem da roça, criado com simplicidade e privação, não tinha jeito de procurar essa pessoa não", foi o que conseguimos traduzir do que falou Hélio.
            O laudo psicológico de Hélio demorou mais a ficar pronto. Ante a pressa da equipe, a responsável sumarizou: "Como ele engole palavras, comida e afetos, essa mistura explosiva trouxe subserviência, obesidade e infarto, o resto converso mais a frente".
            A proposta para o tratamento de Hélio envolvia também as necessidades sociais e a equipe de assistência social já havia realizado amplo levantamento da realidade do paciente, mostrado em curto tempo aquilo que era esperado _ moradia simples, participação em grupos sociais apenas de forma passiva, espírito de liderança ausente.
            Enquanto conhecia o que seria o Hélio em relação ao mundo que o cercava, mais curioso ficava sobre quem realmente seria aquele homem em relação ao seu mundo interno. Sabia de seu comportamento auto-destrutivo, a compulsão alimentar incontrolável, a frustração e mágoa de não ser reconhecido apesar de ser extremamente solícito, a dificuldade em expressar o que sentia porque nem falar corretamente sabia.
            Quase próximo da alta hospitalar de Hélio, um fato se deu. Visitadores voluntários, todos vestidos de roupas circenses e maquiagem de palhaços invadiram a enfermaria, enchendo de brincadeiras e alegria o ambiente sério e restritivo, repleto de sisudez renomeada de ambiente profissional.Hélio, ao ouvir o barulho alegre das pessoas, as brincadeiras e gargalhadas, pulou da cama sem dificuldades e se entregou de tal modo que cantou sem dificuldades e sem engolir palavras; se mostrou ágil, conversou com todos em volta, se soltou. Hélio se descobrira naquele instante. Buscou o estojo de maquiagem da equipe de voluntários, se pintou de palhaço e também usou uma peruca que lhe foi oferecida.
            A médica residente que acompanhou os movimentos de Hélio observou detalhadamente cada passo, cada momento e registrou no prontuário médico. Conhecíamos um pouco mais daquele paciente, e fez questão de me ligar.
            Hélio estava internado sob minha responsabilidade, caberia à minha equipe a sua alta e toda orientação e seguimento após a alta hospitalar. Mas logo soube que caberia a nós lavrar o desfecho final de Hélio. E assim morreu Hélio, feliz, no seu único dia de felicidade na terra.
 
Yoomp