Milhares de análises foram feitas, o patente desequilíbrio do time contrastante com o bom futebol do primeiro tempo nunca terá explicação, mas logo foi apontado um culpado, Felipe Melo. É meu dever de brasileiro pedir a todos, não culpem Felipe Melo, a derrota do Brasil tem um responsável e o nome dele é Mick Jagger.
Muitos anos atrás fui à biblioteca da PUC-Rio em busca de um tesouro, um livro esgotado de Lèvi-Brhull. Com a devida orientação da bibliotecária, percorri corredores formados por estantes repletas de livros até chegar a uma mesa no fundo do grande salão, lugar iluminado por pequena janela próxima do teto muito alto da edificação, o que me fez sentir como em um filme holiwoodiano, um verdadeiro Indiana Jones do sertão em pleno litoral brasileiro. Mas atrás daquela mesa estava alguém maior que o próprio Jones, talvez a fonte oculta de inspiração de Spielberg para a criação do personagem.
Frei Extensum, esse era seu nome, pelo menos foi como se apresentou, inicialmente ralhou comigo por desejar ler um autor não mais lido, apenas citado e impôs-me uma sabatina para saber se deveria ou não liberar-me a obra. Concluiu que eu não era a pessoa indicada para aquele livro, mas me convidou para um café em uma minúscula sala, fora do prédio da biblioteca, no fundo de pequena capela dentro da PUC.
O café frio de cafeteira devia ter uma dezena de horas, mesmo assim o frei o apreciou com gosto e tive que aprender a contorcer os músculos faciais para transformar a expressão de asco em satisfação mas enquanto isso me contou sua vida de antropólogo entre os nativos malawee, na Tailândia e como ele aprendeu algo mais que Lèvi-Brhull. Pegou um livro com capa de couro, na verdade um caderno de anotações, mas antes contou-me sobre uma tradição daquele lugar distante e exótico. O Supremo Imperador do Mal possuiria agentes na Terra que teriam por objetivo atender aos pedidos que os homens não ousariam pedir a Deus. Esses agentes seriam reconhecidos pelo jeito peculiar de suas faces e de seus sorrisos, que os tornam à feição do curinga dos baralhos.
Enquanto me contava a tradição e saboreava seu café frio, o frade sorria muito e me disse ao final, com voz muito grave, que apenas deveria revelar essa história quando muitas lágrimas corressem por obra desses agentes do mal. Abriu o caderno com capa de couro e mostrou alguns desenhos e formas geométricas para reconhecer esses agentes, me passando as medidas exatas. De imediato, no exercício em que fui iniciado pelo frei antropólogo, logo reconheci os dois principais agentes na Terra, William Dafoe e Mick Jagger.
Copa do Mundo da África, experiência vibrante para milhões de adolescentes que eram crianças em 2002, esperança de título para o Brasil. Antes do jogo das quartas com a Holanda, na platéia de Estados Unidos e Gana, a imagem de Mick me fez tremer, ele estava lá, na África do Sul, certamente para espalhar o mal na forma de azar, desequilíbrio, derrota! Ao lado do presidente Clinton (uma vez presidente, sempre presidente!), seu sorriso contagiou de azar o selecionado americano e foram derrotados pelo selecionado africano.
Liguei para treze amigas católicas devotadas, todas elas com idade superior a setenta anos e pedi que rezassem treze terços até a sexta-feira, seria uma forma de neutralizar a possibilidade de Mick torcer para o Brasil e com isso contagiar também nosso selecionado. Uma delas não me atendeu, estava adoentada e substituta não havia naquele instante porque a próxima da lista completaria setenta anos no dia 11 de julho. Frei Extensum me ensinou que para neutralizar os efeitos desses agentes, apenas treze senhoras idôneas com setenta anos completos poderiam rezar os treze terços de salvação do mal malawee!
Me desculpem, irmãos brasileiros, eu bem que tentei mas não foi possível. A maldição de Mick Jagger nos venceu e perdemos a chance do hexacampeonato de futebol. Mas tenho agora enormes esperanças, ontem à noite, com voz débil pela idade quase centenária, me ligou frei Extensum, tocado de extrema felicidade, Mick Jagger e William Dafoe participariam ativamente da campanha eleitoral brasileira, torcendo vibrantemente por Dilma Roussef, Deus seja louvado!


