quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Feliz por um dia


           Hélio era pessoa de poucas palavras e quando as tinha, engolia o final de cada uma delas de modo que era praticamente incompreensível a sua fala. Talvez para compensar sua dificuldade, antecipava-se sempre às necessidades dos outros, assim não era preciso falar nada além de agradecer os inúmeros "muito obrigado" que ouvia o dia todo. Hélio também tinha uma história clínica, obesidade grave e doença coronariana que o coroara com pontes de safena _ interessante como aqueles que são submetidos a cirurgia de revascularização miocárdica apresentam o procedimento adotado de forma a dar a alteridade de um nome, 4 safenas e 1 mamária é o nome mais comum.
            Voltando à história clínica de Hélio, que era o que me interessava, avaliação detalhada de um cirurgião de cabeça e pescoço revelou um problema simples na conformação do maxilar inferior, a antiga mandíbula, que provocava falha na abertura da boca quando ele falava, problema que a Fonoaudiologia resolve em seu cotidiano, sem muitas dificuldades. Por que Hélio não teve esse benefício?
            "Nem sei o que profissão é essa doutor, sou homem da roça, criado com simplicidade e privação, não tinha jeito de procurar essa pessoa não", foi o que conseguimos traduzir do que falou Hélio.
            O laudo psicológico de Hélio demorou mais a ficar pronto. Ante a pressa da equipe, a responsável sumarizou: "Como ele engole palavras, comida e afetos, essa mistura explosiva trouxe subserviência, obesidade e infarto, o resto converso mais a frente".
            A proposta para o tratamento de Hélio envolvia também as necessidades sociais e a equipe de assistência social já havia realizado amplo levantamento da realidade do paciente, mostrado em curto tempo aquilo que era esperado _ moradia simples, participação em grupos sociais apenas de forma passiva, espírito de liderança ausente.
            Enquanto conhecia o que seria o Hélio em relação ao mundo que o cercava, mais curioso ficava sobre quem realmente seria aquele homem em relação ao seu mundo interno. Sabia de seu comportamento auto-destrutivo, a compulsão alimentar incontrolável, a frustração e mágoa de não ser reconhecido apesar de ser extremamente solícito, a dificuldade em expressar o que sentia porque nem falar corretamente sabia.
            Quase próximo da alta hospitalar de Hélio, um fato se deu. Visitadores voluntários, todos vestidos de roupas circenses e maquiagem de palhaços invadiram a enfermaria, enchendo de brincadeiras e alegria o ambiente sério e restritivo, repleto de sisudez renomeada de ambiente profissional.Hélio, ao ouvir o barulho alegre das pessoas, as brincadeiras e gargalhadas, pulou da cama sem dificuldades e se entregou de tal modo que cantou sem dificuldades e sem engolir palavras; se mostrou ágil, conversou com todos em volta, se soltou. Hélio se descobrira naquele instante. Buscou o estojo de maquiagem da equipe de voluntários, se pintou de palhaço e também usou uma peruca que lhe foi oferecida.
            A médica residente que acompanhou os movimentos de Hélio observou detalhadamente cada passo, cada momento e registrou no prontuário médico. Conhecíamos um pouco mais daquele paciente, e fez questão de me ligar.
            Hélio estava internado sob minha responsabilidade, caberia à minha equipe a sua alta e toda orientação e seguimento após a alta hospitalar. Mas logo soube que caberia a nós lavrar o desfecho final de Hélio. E assim morreu Hélio, feliz, no seu único dia de felicidade na terra.

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