segunda-feira, 21 de junho de 2010

A família que nossos jovens irão construir


Observo o meu filho adolescente. Sentado diante do computador, durante horas, comunica-se gestual e emocionalmente com uma tela de LED e uma sequência de imagens quentes, quase reais não fossem formadas por combinações binárias frias e manipuladas livremente por quem avança apenas um pouco na manipulação de programas específicos. Várias telas pululam, janelas chama a atenção para nova mensagem, novo recado, novos convites.
Percebo a fragilidade das fronteiras físicas do lar. A intimidade compartilhada nas redes sociais e nos mensageiros eletrônicos da internet tornam as casas-computadores dos amigos a extensão do próprio lar.
Além do computador, encontros e convívios com amigos antes virtuais.
Os muros do meu adolescente vão além das paredes de casa, uma calça é esquecida no guarda-roupas de um amigo, uma camisa estranha repousa no dele e seus sentimentos e emoções são partilhados não apenas nos limites de minha casa, mas também com sua rede de amigos.
Mas o que é uma rede de amigos e como esses relacionamentos se dão? Outro dia ouvia uma psicóloga gabaritada falar do quão adolescente são as redes sociais mas terminou a entrevista anunciando a página dela no Orkut.
E relacionamentos surgem das redes sociais, a ponto de se solidificarem em uniões mais sérias, geram visitas aventureiras ou sinceramente românticas. Mas os olhares que as fotos mostram e as webcam mal refletem nem sempre se direcionam para explorar a profundidade do outro, como os toques virtuais mal passam das sensações instintivas, deixando a sensação do vazio, da perda, da não completude.
A  adolescência se caracteriza pela busca de diferenciação dos pais e pelo engajamento com os que a ele se assemelham. Adolescência não é sinônimo de revolta, mas uma fase criativa do desenvolvimento humano, uma espécie de iniciação na autonomia que deve caracterizar o ser. E nunca foi tão partilhada como agora, nunca tão exposta.
Os adultos que já usufruíram da explosão digital não carregam a experiência que nossos jovens de hoje já levarão ao futuro de cada um. Serão essas famílias o paradigma proposto, onde a porta da frente se expandiu a ponto de se dissolver para uma comunidade integrada e interativa?
Um modelo interessante é dos jovens que se tornaram pais e mães na adolescência, porque continuam integrados na mesma rede dos seus pares de mesma idade mas que não passaram pela experiência de um filho. A verdade é que os filhos acabam por terem os avós como pais  substitutos, porém o estilo de vida dos pais impõe o modelo que a criança seguirá.
Outro fato real dessa atualidade virtual é o embotamento das consciências ante a violência, onde a morte por eliminação se torna banal em questões mínimas e nunca vitais, um jogo virtual pode determinar a morte de uma criança real, como a filha do casal Kim, morta por inanição, na Coréia, enquanto seus pais jogavam por mais de 12 horas um desafio de manter uma criança virtual viva.
Outro desafio é que o uso e abuso de drogas entre jovens está consumindo a parcela da população que víamos como reserva de futuro _ para nossa triste realidade, a idade média de início no crack é 13 anos e essa droga se verticalizou em todas as classes sociais. E o que se sabe é que o distanciamento da realidade, induzido pelo consumo excessivo de internet, facilita a dependência, o arrastamento para as drogas excitantes.
O paradigma ainda continua sendo as bases estruturadoras da família, o possível avanço desse paradigma, das famílias cujas portas da frente se expandiram, talvez esteja ensaiando seus passos mas isso talvez não será para minha geração experimentar.

terça-feira, 15 de junho de 2010

A mesa do restaurante não é mesa de meu consultório!


Rememorando cenas de meu cotidiano, voltei a Brasília, pouco mais de um ano atrás, mais precisamente de uma cena em um restaurante, onde já ansioso pela fome devoradora, esperava meu prato . Tentava me dessedentar às custas de Coca Zero, enquanto me permitia olhar o gelo em lento processo de liquefação.
            Poucos segundos e meu olhar curioso se deteve no casal que chegava com uma criança carregada no colo do pai, acompanhados por uma babá que trazia sacolas e a incumbência da escolha da mesa. A mãe se movimentava rapidamente, demonstrando irritação, ao mesmo tempo que observava o marido com o filho e a babá com as sacolas.
            O foco de meu olhar se deteve sobre a criança. Era uma fácies sindrômica, ou um rosto que aparentava uma alteração rara. O bebê apresentava micrognatia (queixo pequeno), qual Noel Rosa, mas também tinha o nariz em sela, os olhos afastados um do outro e uma persistente hipotonia, seu corpo não encontrava a contração muscular do tronco e da coluna para se sustentar. Dormia um sono pesado.             Mentalmente comecei a descrever postulações sobre a possível síndrome, num processo chamado de repertorização, onde as anomalias são descritas em conjunto para descartar a probabilide de uma doença genética. Discretamente observei as características da mãe, o tipo de rosto, a característica do nariz, o posicionamento dos olhos e das orelhas. Qual investigador, fazia mentalmente a repertorização daquela doença e imaginava as condutas a serem tomadas.
            Diante de uma mãe normal, imediatamente me detive no pai, que segurava a criança, embalando-a com extremo amor, acalentando seu sono e repetindo a cada instante "filhinho lindo do papai"!  
            Naquele me dei conta que mesa de restaurante não é a minha mesa de consultório, que as pessoas não são conhecidas pelos prontuários médicos, que os sentimentos não se detém em formas, contornos, características físicas.
            Tomado de emoção, até me esqueci do outro casal que estava em frente à minha mesa e que se comunicava um com o outro através do celular, sem que nenhuma palavra fosse dirigida ao outro diretamente, sempre com a intermediação de um aparelho. Também me esqueci do agitado homem que me assustou quando, de pé ao meu lado, falou de modo tão ríspido com seu pai que todo o restaurante protestou indignado, a voz alterada do homem foi maior que o barulho do restaurante.
Apenas uma cena que se repetia docemente, que me fez mentalmente dizer: "Filhinho lindo do papai, não sei seu nome, mas sei que é amado!"

A Difícil Tarefa de Comprar Tomates

Tomates, nem maduros demais e nem tão duros. No ponto para a confecção de um molho especial com gosto italiano. Essa a missão que assumi ao descer apressadamente ao supermercado após os outros ingredientes do afamado molho terem sido cuidadosamente selecionados no armário-dispensa de minha pequena cozinha. Uma macarronada com molho especial, aprendido há muitos anos, na casa de meu amigo Bertero, em São Paulo.
Sábados ao quase final da tarde nem sempre é um bom momento para supermercados. Todos resolvem solucionar seus problemas de casa e cozinha no momento que antecede o crepúsculo, como se o por do sol tivesse o poder mágico de reduzir os preços ou provocar insanidade nos gerentes dos supermercados a ponto de ofertarem gratuitamente os produtos das gôndolas.
E no supermercado cheio, com a pressa a marcar meus passos, eis que me deparo ante a pia de tomates do tipo salada, pronto para escolher os que melhor caíssem nos meus critérios de seleção. Mal começo palpar a fruta para sentir o seu ponto e eis que minha atenção é roubada por um tipo exibicionista, que entra cantando performaticamente supermercado adentro, como se nós, os apressados clientes fossemos seu público cativo.
A melodia desafinada vinha em um péssimo inglês e só esse atentado à língua anglo-saxã já seria motivo para que os seguranças o retirassem dali, sem contar que seus trajes inoportunos, um homem magro usando tamancos de salto altíssimo, lenço no pescoço e óculos de sol enormes compunham um tipo bizarro. Nada contra a bizarrice de um personagem, tudo contra a música que saía excessivamente alta e desafinada. O pior é que em sua performance, ele apontava o dedo em minha direção, me destacando em meio à pequena multidão.
Não sei se ouviram minhas preces ou a ordem do dono do estabelecimento, mas em pouco tempo, antes mesmo de completar I Will Survive quase pulando em meu pescoço, o esdrúxulo cantor deixou o recinto. Alívio para um atrasado comprador de pequena quantidade de tomates. Poderia retomar a devida concentração para a escolha do principal componente do molho carbonara.
Mais uma pequena pressão com os dedos e alguns tomates no saco e novamente a minha atenção é arremessada por uma dupla barulhenta que cega dos outros, me empurram de onde estou sem perceberem minha veemente reclamação.
Duas mulheres, uma bem mais velha que outra, discutiam sobre o que realmente faltava em casa. A que parecia ser a mãe, desqualificava sua filha a cada sugestão e cada negativa da mãe vinha acompanhada com agressões verbais sugestivas da limitada capacidade mental da filha.
A resposta da outra não tardava, sempre no mesmo tom alto de voz que a mãe empregava, e por ela fiquei sabendo que ninguém na casa aguentava mais a incontinência urinária da genitora, sem qualquer percepção do local onde se encontrava, para delírio dos presentes, todos ficamos sabendo que na casa delas havia calcinhas dependuradas por toda a sala e pelos quartos, que uma risada ou ranhetice, até mesmo pequeníssima tosse e um cheiro forte de urina roubava a cena e o perfume da mãe.
A senhora quase idosa não se fez de rogada, além de pedir respeito, me puxou pelo ombro e gritou a todos, como se estivesse falando comigo, que a filha também tinha seus problemas, o mais grave deles era a voz de seu estômago após cada refeição, enchendo de barulhos e cheiros a mesa e a sala.
Tentei rapidamente sair, estava além de minha hora, puxei meu ombro de volta, deixei qualquer análise das cenas para um momento futuro, busquei o caixa. Mas qual não foi minha surpresa ao deparar com meu vizinho com cabelos arrepiados para o alto, como se tivesse tomado choque elétrico, camisa social, bermuda de corrida e chinelos. Disfarçadamente cumprimentei-o e um grito assustador foi a resposta, seguida de proclamações religiosas.
Quando a moça do caixa me convidou para pagar meus tomates, depositei-os na caixa de devolução e resolvi comer um bife.
 
Yoomp