Madrugada de terça-feira, o vento frio se insinuava pela fresta tímida da janela no momento em que de súbito sou retirado do deleite dos sonhos por Olívio Correa, que retornara do plano dos espíritos não apenas para me alertar do frio, mas tinha um convite.
“Considere-me apenas como um oficial de justiça a quem cabe intimar em cumprimento de ordens superiores. Venha!” Não tive como pedir auxílio ao meu amigo Watson Alves Ferreira, minha referência em Anápolis das décadas de 50 e 60, não dominava, e ainda não tenho qualquer domínio, da vida como espírito e depois poderia assustar o amigo, não acostumado ao diálogo com espíritos de mortos, quanto mais de vivos. Na falta do endereço do João Maranhão, fui sozinho com seu Olívio.
A viagem foi breve, como se passássemos por um portal, repentinamente a escala do tempo sofreu um revés e logo estava em 23 de abril de 1950, era a data de fundação do Sanatório Espírita de Anápolis. Seu Olívio despediu-se de mim amorosamente e repentinamente me vi no ambiente que conheço e trabalho há quase vinte anos. Tempo algum se fez passar e meu companheiro Zilmar Pereira acontece ao meu lado, vindo guiado por um senhor distinto, sério, com uma prancheta na mão.
Ao nosso lado a comemoração do sexagenário hospital era calma, sem alardes, total agradecimento pelas seis décadas de existência. Diante de mim e de meu amigo uma tela enorme projetou um filme, a história de um grupo de idealistas que trouxeram um ideal em forma de missão. Amparar à loucura e oferecer tratamento a base de oração, passes magnéticos, arsenais que o Espiritismo oferece, era apenas a parte inicial de um projeto que se desdobrou, amplificado pela chegada da era do Espírito que se instalava em novo desdobramento.
Enquanto o filme desenrolava, outras pessoas que compartilham conosco as atividades de trabalhadores da casa simplesmente apareciam ao nosso lado, aumentando a emoção e o conforto. Ao mesmo tempo, os que partilhavam da outra solenidade chegavam a pequenos grupos até que o local onde me encontrava ficasse repleto.
Sempre com a prancheta na mão, o senhor de estatura moral elevada esperou o término da última cena e tomou a palavra. “Ao longo de duas décadas temos trabalhado em nosso ideal de atendimento espírita-cristão, disse ele com voz firme, e sabemos hoje que, a par do desenvolvimento de moderna farmacoterapia aplicada aos transtornos da mente, é imprescindível a aplicação da insuperável terapia do amor, do cuidado. Nosso hospital ideal não tem muros que isolam, mas portas que se abrem para a comunidade; não tem salas que contém, mas oficinas que integram o atormentado mental e o dependente químico, na sociedade como cidadãos; nossa equipe se estrutura pela meritocracia, onde os que mais se devotam têm o reconhecimento de todos e onde nenhuma opinião é desprezada.”
Enquanto o antigo amigo falava, a emoção me envolvia por ver que suas palavras tomavam a forma de cenas vivas, projetadas na grande tela. O preletor fez referências seguidas a Inácio Ferreira e Maria Modesto Cravo, pioneiros do Sanatório Espírita de Uberaba e encerrou sua palestra com a presença de pessoas humildes, que participaram da fundação do hoje Hospital Espírita de Psiquiatria, entre elas pude distinguir dona Nair e seu Lázaro, o sorridente eletricista, meu querido amigo de palestras espíritas.
Sabia que meu tempo estava se encerrando, Zilmar conversava com seu Olívio Correa e Moacir Romeu Costa. Procurei o seu Hastinphilo Leão para saber da baiana, a primeira paciente, transtornada mental que foi a primeira a ser atendida. Havia chegado a Anápolis vinda não se sabe de onde, sem familiares, vagava pelas ruas, assustava as pessoas com sua loucura. O amigo sorriu e apontou para uma mulher de sorriso aberto, olhar terno e de modo reverente e saudoso me disse: “Ela foi aquela que serviu como voluntária para que nosso ideal fosse lembrado. E você, que ideal carrega, meu filho?” Não tive como responder, amanhecia e o despertador me chamou de volta, deixando a tarefa de refletir sobre o ideal de uma instituição que completa sessenta anos.
terça-feira, 27 de abril de 2010
segunda-feira, 19 de abril de 2010
A Doença como Linguagem
Ela chegou com um enorme envelope da Clínica Radiológica nas mãos, carregando como se fosse um longo e minucioso inquérito; apesar do peso da embalagem, tinha braços que aparentavam fraqueza, os músculos destacavam-se como se esforço enorme estivesse consumindo suas energias.
“O que eu tenho, doutor? Trago aqui exames, meu corpo foi revirado de dentro para fora e os médicos ainda não me disseram o que tenho. Confesso que o último profissional que procuro é o senhor, se não me der solução, nem sei o que vou fazer, mas médico não procuro!”
Médicos são remédios dos mais caros que existem. Solicitam sofisticados exames, a custos crescentes para o sistema de saúde, indicam cirurgias e prescrevem remédios e soluções que também geram custos. Nos casos onde a doença é trazida pelo paciente, a eficácia do remédio chamado médico beira a totalidade, nos casos onde a doença é o paciente, os efeitos colaterais são evidentes e por vezes danosos.
Não houve modificação da sintomatologia das doenças orgânicas conhecidas ao logo dos anos. Com a exceção de raras síndromes inflamatórias, como as doenças do colágeno, distúrbios hormonais raros, como feocromocitoma, a eficácia dos protocolos diagnósticos que o médico dispõe permite com segurança a identificação dos males do corpo e a elaboração de tratamentos.
Mesmo com toda a eficácia dos recursos e avanços da Medicina, é crescente a insatisfação dos pacientes com o remédio chamado médico. Pesquisa do Instituto Gallup, nos Estados Unidos em 2002, mostrou que até 60% dos pacientes não se sentem confortados pelos seus médicos e gostariam que o tratamento alcançasse limites além da doença que trazem.
Quando a doença é a linguagem que o paciente traz para falar de si, ou de algo que o incomoda, o médico sofre as limitações de um remédio que não é panacéia, a cura de todos os males. Isso porque o mal existente ou aparente assume características e comportamentos que vão além dos limites que a limitação do conhecimento médico pode alcançar.
As doenças seguem leis irracionais, incompreensíveis para os médicos. Por não ser totalmente conhecido o mecanismo das leis que regem as doenças, os tratamentos são focados nos pontos principais e conhecidos de cada moléstia. Isso permite que o tratamento seja baseado no conhecimento alcançado pela Ciência e seja aplicado a todos os portadores daquela doença
A doença torna-se linguagem quando é a forma que o paciente encontra para falar de si, por não conseguir ouvir o que sua mente quer dizer. Doença-fantasma não é uma entidade médica, mas uma realidade presente em número considerável. Não diz respeito a algo imaginário, porque o doente sofre, mas é uma forma dolorosa da mente se manifestar e interferir no organismo, chamando atenção para si. É responsável, também, por numerosos sintomas desconhecidos de doenças conhecidas.
Estamos então no campo da chamada psico-somática, que diz mais que o jargão reducionista que reza “tudo é psicológico”. Aqui é a interação danosa da mente que usa o corpo para falar à consciência que algo vai errado.
Diante de tantos exames, de imagem e de laboratório, restou a pergunta, “se todos os exames estão normais, se seu corpo está perfeito, o que você realmente acha que te faz sofrer?”
A tomada de consciência de que fatores inconscientes incomodam leva à mudança de postura, ao alívio, ao caminho para a saúde. A inscrição gravada em ouro no pórtico do templo de Delphos ecoa viva em nossas almas: Homem, conhece-te a ti mesmo.
“O que eu tenho, doutor? Trago aqui exames, meu corpo foi revirado de dentro para fora e os médicos ainda não me disseram o que tenho. Confesso que o último profissional que procuro é o senhor, se não me der solução, nem sei o que vou fazer, mas médico não procuro!”
Médicos são remédios dos mais caros que existem. Solicitam sofisticados exames, a custos crescentes para o sistema de saúde, indicam cirurgias e prescrevem remédios e soluções que também geram custos. Nos casos onde a doença é trazida pelo paciente, a eficácia do remédio chamado médico beira a totalidade, nos casos onde a doença é o paciente, os efeitos colaterais são evidentes e por vezes danosos.
Não houve modificação da sintomatologia das doenças orgânicas conhecidas ao logo dos anos. Com a exceção de raras síndromes inflamatórias, como as doenças do colágeno, distúrbios hormonais raros, como feocromocitoma, a eficácia dos protocolos diagnósticos que o médico dispõe permite com segurança a identificação dos males do corpo e a elaboração de tratamentos.
Mesmo com toda a eficácia dos recursos e avanços da Medicina, é crescente a insatisfação dos pacientes com o remédio chamado médico. Pesquisa do Instituto Gallup, nos Estados Unidos em 2002, mostrou que até 60% dos pacientes não se sentem confortados pelos seus médicos e gostariam que o tratamento alcançasse limites além da doença que trazem.
Quando a doença é a linguagem que o paciente traz para falar de si, ou de algo que o incomoda, o médico sofre as limitações de um remédio que não é panacéia, a cura de todos os males. Isso porque o mal existente ou aparente assume características e comportamentos que vão além dos limites que a limitação do conhecimento médico pode alcançar.
As doenças seguem leis irracionais, incompreensíveis para os médicos. Por não ser totalmente conhecido o mecanismo das leis que regem as doenças, os tratamentos são focados nos pontos principais e conhecidos de cada moléstia. Isso permite que o tratamento seja baseado no conhecimento alcançado pela Ciência e seja aplicado a todos os portadores daquela doença
A doença torna-se linguagem quando é a forma que o paciente encontra para falar de si, por não conseguir ouvir o que sua mente quer dizer. Doença-fantasma não é uma entidade médica, mas uma realidade presente em número considerável. Não diz respeito a algo imaginário, porque o doente sofre, mas é uma forma dolorosa da mente se manifestar e interferir no organismo, chamando atenção para si. É responsável, também, por numerosos sintomas desconhecidos de doenças conhecidas.
Estamos então no campo da chamada psico-somática, que diz mais que o jargão reducionista que reza “tudo é psicológico”. Aqui é a interação danosa da mente que usa o corpo para falar à consciência que algo vai errado.
Diante de tantos exames, de imagem e de laboratório, restou a pergunta, “se todos os exames estão normais, se seu corpo está perfeito, o que você realmente acha que te faz sofrer?”
A tomada de consciência de que fatores inconscientes incomodam leva à mudança de postura, ao alívio, ao caminho para a saúde. A inscrição gravada em ouro no pórtico do templo de Delphos ecoa viva em nossas almas: Homem, conhece-te a ti mesmo.
sábado, 10 de abril de 2010
Chá da China
“Chá, compre-me apenas chá, de qualquer marca, mas de sabor exótico, diferente dos que encontramos por aqui”. Era uma encomenda simples, a princípio de valor irrisório para alguém que em menos de um dia viajaria para o exterior longínquo e deixaria para trás o amigo preterido. Apenas uma vaga surgiu para a empresa, mas a vaga tinha nome, escolhido diretamente pelos patrocinadores.
Estevão mostrava humildade ao reagir apenas com a cara fechada quando soube da definição, um mês antes da viagem. “Essa viagem era minha, mas já que não me quiseram o que posso fazer?” Foi o que me disse no dia em que o email chegou. Fez questão de me ligar para cumprimentar e dar recomendações sobre Pequim. “Tem dois anos que estudo a cidade, conheço tudo o que escreveram sobre a capital da China”.
Não mais tocou no assunto, nada falou nas semanas seguintes, na verdade me evitou a todo custo e foi burocrático quando me encontrou, logo conseguindo uma chamada telefônica inadiável que tinha que ser atendida a qualquer custo.
Comprei um sobretudo pesado, disse a ele uma semana antes do embarque, em raro momento de maior atenção. “Overcoat, esse é o nome. Evite os escuros mas não use cores vivas, prefira cinza claro. Comprou um preto? Então não necessitava de minha ajuda. Boa viagem.”
Overcoat. Soube que Estevão havia comprado um sobretudo Armani em São Paulo. Pagou a bagatela de três mil reais, mas justificava dizendo que valeria cada tostão, o frio de Pequim pagaria cada centavo. E o meu foi comprado em um brechó de porta única e mal iluminado. A vendedora era quase cega de tão caolha, mas era boa vendedora porque me vendeu por um décimo do preço um sobretudo encardido e sem botões; uma semana de intensa procura para achá-los no tamanho e cor ideais.
Tenho luvas antigas, de lã, disse também a ele naquele dia. O colega olhou-me com desdém, não usava luvas, exceto se fossem de couro, mas eu deveria saber o que era melhor para mim. Deveria mesmo, as luvas de tão antigas rasgaram quando fui experimentar novamente, abrindo buracos cujos reparos me custariam um novo par.
A programação para a viagem era de uma semana corrida, mas foram gastos dois dias para chegar e outros dois dias levariam para retornar. A escala era em Frankfurt, tanto na ida quanto na volta e na cidade alemã descansaria dez horas em cada etapa da viagem. O resultado é que teria três dias na cidade chinesa, sendo que dois dias seriam ocupados pelo evento. O total efetivo que me sobraria, um dia. O primeiro dia.
A encomenda de Estevão seria buscada nas poucas horas que teria entre a saída do hotel e o aeroporto. Já localizara o supermercado, comprar chás exóticos seria um passeio, tudo o que viesse de tão longe por si só seria exótico. Naquela manhã abri email de Estevão reforçando o pedido, queria chás exóticos e reforçava que não era de jasmim, preto, bergamota, hibisco. Terminava a correspondência eletrônica reforçando que contava com o amigo que aliviaria a frustração de quem se preparou para viajar e fora preterido.
Uma das malícias que a vida me ensinou foi perceber a chantagem e não cair em armadilhas. Estevão estava se vingando sua raiva por não ter sido o escolhido, em minha boa disposição e vontade. Eu não encontraria um chá exótico em supermercado algum e realmente o que vi foi um desfile de chás conhecidos nas prateleiras de nossos supermercados e nas estantes de lojas da Europa, muito freqüentadas pelo amigo. Um funcionário do mercado se esforçou para me entender e o máximo que me vendeu foi um chá que misturava mel, jasmim e canela, era o mais exótico para ele.
Com o chá em mãos, coloquei-o na bagagem de mão e segui o conselho de um taxista português. “Nada é mais exótico em China que o tabaco dos cigarros que vendem aqui. Antigamente eram distribuídos, na época do comunismo rigoroso, agora são vendidos a preço de banana”. Carteira de cigarros comprada, faltou apenas uma caixa, onde a mistura do tabaco ao chá daria ar de imponência.
No ônibus de volta, um colega do Rio Grande do Sul deu risadas e provocou espanto ao mostrar uma caixa de camisinhas decorada com mandalas chinesas. Era uma caixa de plástico, mas com aparência de madeira e a pintura parecia entalhes. “Bá! Se acha em qualquer farmácia aqui, até mesmo no aeroporto!”.
Peço apenas que não me convidem para junto com Estevão tomar um chá exótico da China, que vem em uma caixa belíssima, tem o aroma forte de misturas incomuns e gosto um tanto amargo de tabaco ordinário.
Estevão mostrava humildade ao reagir apenas com a cara fechada quando soube da definição, um mês antes da viagem. “Essa viagem era minha, mas já que não me quiseram o que posso fazer?” Foi o que me disse no dia em que o email chegou. Fez questão de me ligar para cumprimentar e dar recomendações sobre Pequim. “Tem dois anos que estudo a cidade, conheço tudo o que escreveram sobre a capital da China”.
Não mais tocou no assunto, nada falou nas semanas seguintes, na verdade me evitou a todo custo e foi burocrático quando me encontrou, logo conseguindo uma chamada telefônica inadiável que tinha que ser atendida a qualquer custo.
Comprei um sobretudo pesado, disse a ele uma semana antes do embarque, em raro momento de maior atenção. “Overcoat, esse é o nome. Evite os escuros mas não use cores vivas, prefira cinza claro. Comprou um preto? Então não necessitava de minha ajuda. Boa viagem.”
Overcoat. Soube que Estevão havia comprado um sobretudo Armani em São Paulo. Pagou a bagatela de três mil reais, mas justificava dizendo que valeria cada tostão, o frio de Pequim pagaria cada centavo. E o meu foi comprado em um brechó de porta única e mal iluminado. A vendedora era quase cega de tão caolha, mas era boa vendedora porque me vendeu por um décimo do preço um sobretudo encardido e sem botões; uma semana de intensa procura para achá-los no tamanho e cor ideais.
Tenho luvas antigas, de lã, disse também a ele naquele dia. O colega olhou-me com desdém, não usava luvas, exceto se fossem de couro, mas eu deveria saber o que era melhor para mim. Deveria mesmo, as luvas de tão antigas rasgaram quando fui experimentar novamente, abrindo buracos cujos reparos me custariam um novo par.
A programação para a viagem era de uma semana corrida, mas foram gastos dois dias para chegar e outros dois dias levariam para retornar. A escala era em Frankfurt, tanto na ida quanto na volta e na cidade alemã descansaria dez horas em cada etapa da viagem. O resultado é que teria três dias na cidade chinesa, sendo que dois dias seriam ocupados pelo evento. O total efetivo que me sobraria, um dia. O primeiro dia.
A encomenda de Estevão seria buscada nas poucas horas que teria entre a saída do hotel e o aeroporto. Já localizara o supermercado, comprar chás exóticos seria um passeio, tudo o que viesse de tão longe por si só seria exótico. Naquela manhã abri email de Estevão reforçando o pedido, queria chás exóticos e reforçava que não era de jasmim, preto, bergamota, hibisco. Terminava a correspondência eletrônica reforçando que contava com o amigo que aliviaria a frustração de quem se preparou para viajar e fora preterido.
Uma das malícias que a vida me ensinou foi perceber a chantagem e não cair em armadilhas. Estevão estava se vingando sua raiva por não ter sido o escolhido, em minha boa disposição e vontade. Eu não encontraria um chá exótico em supermercado algum e realmente o que vi foi um desfile de chás conhecidos nas prateleiras de nossos supermercados e nas estantes de lojas da Europa, muito freqüentadas pelo amigo. Um funcionário do mercado se esforçou para me entender e o máximo que me vendeu foi um chá que misturava mel, jasmim e canela, era o mais exótico para ele.
Com o chá em mãos, coloquei-o na bagagem de mão e segui o conselho de um taxista português. “Nada é mais exótico em China que o tabaco dos cigarros que vendem aqui. Antigamente eram distribuídos, na época do comunismo rigoroso, agora são vendidos a preço de banana”. Carteira de cigarros comprada, faltou apenas uma caixa, onde a mistura do tabaco ao chá daria ar de imponência.
No ônibus de volta, um colega do Rio Grande do Sul deu risadas e provocou espanto ao mostrar uma caixa de camisinhas decorada com mandalas chinesas. Era uma caixa de plástico, mas com aparência de madeira e a pintura parecia entalhes. “Bá! Se acha em qualquer farmácia aqui, até mesmo no aeroporto!”.
Peço apenas que não me convidem para junto com Estevão tomar um chá exótico da China, que vem em uma caixa belíssima, tem o aroma forte de misturas incomuns e gosto um tanto amargo de tabaco ordinário.
sábado, 3 de abril de 2010
Livrai-nos do mal

Imagino que Isabella não clamou por justiça como motivo para seu descanso, mas apenas imagino. Os mortos falam quando querem, de várias formas, não apenas através de médiuns, mas também nos sonhos, intuições, lembranças. Isabella teria falado de algum modo com alguém clamando justiça?
Os jornais e revistas assinalaram que a menina gostava da companhia do pai, sentia sua falta. Não se sabe se Alexandre a espancava, se tinha arroubos de impulsividade, beirando a insanidade, comportamento que a psiquiatria batizou de acting para descrever a ação impulsiva, impensada, danosa, que algumas pessoas que não conheceram limites apresentam como cartão de identidade. E onde chegam provocam o temor de um barril de pólvora que explodirá em minutos, e sempre explode. Alexandre a espancava, seus actings se voltavam contra a filha? Não imagino, nem ao menos imagino.
O que tenho certeza é que Isabella não é mártir, como quer boa parte da mídia, como querem os sensacionalistas de todas as horas. Foi mais uma menina ingênua, inocente, que sentiu a voracidade de uma madrasta que se revelou cruel, de um pai fraco e covarde. A morte de Isabella e a condenação de seus assassinos não retira o mal de perto de nós.
A oração dominical se encerra com a sentença em que pedimos que não sejamos entregues solitariamente à tentação e mais, que sejamos livres do mal. No encadeamento da súplica, o libertar-se da tentação e do mal não vem do elemento exterior, porque é conseqüência de um ato interno de perdoar, “perdoai as nossas ofensas, assim como perdoamos a quem nos tem ofendido”. O pedir perdão na medida da capacidade de perdoar antecede a revelação de Jesus sobre a origem do mal dentro do homem, “e não nos deixei cair em tentação, mas livrai-nos do mal”.
Figuras como Nardoni e Jatobá não se fazem originais. Contam-se aos montes, como a mãe que permitiu o abuso e morte do filho de pouco mais de um ano de idade pelo padrasto perverso, talvez repetindo a perversão da outra mãe, que viu o filho morrer de fome e se comprazer com isso. As duas alegaram ignorância, buscaram a chancela da miséria, a justificativa da ausência de oportunidades, e poderiam arrolar vários outros motivos, mas apenas como enfeite da crueldade que escondiam, da incapacidade de proteger os filhos e, pior, usariam desses e todos os motivos para adornarem o banquete de devoradoras de crias. O que mais me assusta é que a distância que vivo dessas mães é de apenas uma viagem a Goiânia ou pouco mais longe, mas dentro de Goiás.
A sociedade não teve tempo para descansar em paz. Jamais deixa de criar enredos de prisão e tormenta. A virtualidade que rege as relações à distância é a realidade de uma linguagem binária dos computadores. Imagens belíssimas são criadas para jamais serem concretizadas ou alcançadas, porque apenas são o código de informação de um computador. E mesmo assim a virtualidade excita, vicia, aprisiona.
O sexismo que invade as relações virtuais é outra forte algema, que entorpece os sentidos e exige compensações enormes, comportamentos aberrantes, bizarros, para aplacar desejos que surgiram de sensações, de afeto sem origem em sentimentos.
A banalização da violência, amplificada pelo entorpecimento da razão, mata-se como em um jogo. No jogo em que os dados rolados decidem vidas humanas, um mendigo é apenas algo encontrado na rua, seus trapos logo viram chamas e nem os gritos de dor do suplício pelo fogo desperta os perversos que se comprazem nas orgias de droga e sangue.
Páscoa é libertação. Senhor, livrai-nos do mal, amém!
quinta-feira, 1 de abril de 2010
Cumplicidade Mental
Um carro emprestado a um criminoso, facilitando a fuga e eis que um novo rosto surge importante na história sangrenta da morte de Glauco e Raoni. Motivos para ter levado o assassino e depois cedido o carro irão surgir, um desfile de fatos e cenas comporão o leitmotiv da ópera de sangue e loucura. Um só motivo estará guardado com o agora cúmplice do psicótico que desferiu os tiros, que cindiu o véu da tolerância com a erva do Santo Daime.
Fernanda Viana tinha 16 anos quando foi mantida refém em um hotel em Feira de Santana na Bahia. O bandido que a deteve era pouco mais velho que ela, ganhou notoriedade no Brasil, virou filme e livro, mas não escapou da morte dentro da prisão. Leonardo Pareja despertou não apenas a paixão de Fernanda, parente próxima do então senador Antônio Carlos Magalhães, mas também a devoção de muitas mulheres. A causa real dessas paixões não é diferente do motivo de Felipe Iasi em ceder seu carro para a fuga de Cadu.
Como não é diferente do escândalo homossexual envolvendo um padre de Arapiraca, Alagoas, que não titubeou em expor a Igreja Católica aos efeitos de sua sanha proibida pelo celibato e somando-se às outras centenas de ocorrências mundo afora, constrangendo o Catolicismo a se defender do achaque de materialistas cujo interesse maior é a demolição do edifício cristão do seio da Humanidade.
Nietzsche teve a aguçada percepção que o povo germânico de sua época nutria em si os germes do mal que eclodiriam nas duas guerras mundiais que envolveram a Alemanha. Sua filosofia trouxe para o plano das interações da realidade a Filosofia, obrigou que se dobrasse ao conhecimento do homem e de suas volições.
Rollo May enxergou que o homem da década de 50 se comportava qual o da era vitoriana, fechado em torno de uma casca, enxergava o mundo tentando dele se isolar. O resultado desse comportamento é a falta de parâmetro para perceber a si mesmo. Somos a medida do outro.
Crianças nutrem figuras imaginárias em seu universo infantil. Heróis e bandidos interagem em contínua luta nos papéis que ela assume. O que rege essa interação é a percepção da criança que se julga centro e criadora do mundo e de tudo o que a cerca, os papéis dos outros são definidos por sua mente a cada movimento. Levi-Brhul chamou essa relação de participação mística, ao estudar civilizações indígenas isoladas.
Adultos fechados em si mesmos tendem a se julgar centro do mundo, seus pensamentos não alcançam o outro e são auto-referentes. O que não é excluído do seu mundo é usado como participante de um papel. O bandido acobertado, ou levado a cabo de grande amor, a aventura proibida que coloca em risco instituições grandiosas e fundamentais.
Era apenas um caldo quente e escaldante que fazia-nos suar na noite do domingo que passou. Mas a televisão tirou minha atenção do caldo e da amada, mostrou a entrevista de um menor de vida marginal, assaltante e assassino. A vida é um jogo, ensinou ele, se ganhamos, dividimos o prêmio, se a gente morre é porque perdeu o jogo.
O rapaz que disse isso não completou os dezessete anos, não sabe nada da vida, sabe apenas que está em um jogo de gozo ou morte. Não tem filosofia ou propósito além disso. Não sabe o nome do outro, do seu colega de libações ou morte, não sabe o nome de suas vítimas, não se preocupa além de jogar. É a vida.
Mas a sociedade se pune a si mesmo ao manter desejos ocultos e participações criminosas na cumplicidade mental de pessoas que cumprem um papel, ou deveriam cumprir, que sabem refletir ainda que primariamente e percebem que a vida não é um jogo de prazer ou morte. Expressam o desejo da ordem, mas associam-se às variações do mal que a todos castiga. Castigar o outro e evitar sistematicamente que ele possa existir pela certeza do sofrimento imposto, esse o prazer em se perpetuar o mal dentro de si.
Fernanda Viana tinha 16 anos quando foi mantida refém em um hotel em Feira de Santana na Bahia. O bandido que a deteve era pouco mais velho que ela, ganhou notoriedade no Brasil, virou filme e livro, mas não escapou da morte dentro da prisão. Leonardo Pareja despertou não apenas a paixão de Fernanda, parente próxima do então senador Antônio Carlos Magalhães, mas também a devoção de muitas mulheres. A causa real dessas paixões não é diferente do motivo de Felipe Iasi em ceder seu carro para a fuga de Cadu.
Como não é diferente do escândalo homossexual envolvendo um padre de Arapiraca, Alagoas, que não titubeou em expor a Igreja Católica aos efeitos de sua sanha proibida pelo celibato e somando-se às outras centenas de ocorrências mundo afora, constrangendo o Catolicismo a se defender do achaque de materialistas cujo interesse maior é a demolição do edifício cristão do seio da Humanidade.
Nietzsche teve a aguçada percepção que o povo germânico de sua época nutria em si os germes do mal que eclodiriam nas duas guerras mundiais que envolveram a Alemanha. Sua filosofia trouxe para o plano das interações da realidade a Filosofia, obrigou que se dobrasse ao conhecimento do homem e de suas volições.
Rollo May enxergou que o homem da década de 50 se comportava qual o da era vitoriana, fechado em torno de uma casca, enxergava o mundo tentando dele se isolar. O resultado desse comportamento é a falta de parâmetro para perceber a si mesmo. Somos a medida do outro.
Crianças nutrem figuras imaginárias em seu universo infantil. Heróis e bandidos interagem em contínua luta nos papéis que ela assume. O que rege essa interação é a percepção da criança que se julga centro e criadora do mundo e de tudo o que a cerca, os papéis dos outros são definidos por sua mente a cada movimento. Levi-Brhul chamou essa relação de participação mística, ao estudar civilizações indígenas isoladas.
Adultos fechados em si mesmos tendem a se julgar centro do mundo, seus pensamentos não alcançam o outro e são auto-referentes. O que não é excluído do seu mundo é usado como participante de um papel. O bandido acobertado, ou levado a cabo de grande amor, a aventura proibida que coloca em risco instituições grandiosas e fundamentais.
Era apenas um caldo quente e escaldante que fazia-nos suar na noite do domingo que passou. Mas a televisão tirou minha atenção do caldo e da amada, mostrou a entrevista de um menor de vida marginal, assaltante e assassino. A vida é um jogo, ensinou ele, se ganhamos, dividimos o prêmio, se a gente morre é porque perdeu o jogo.
O rapaz que disse isso não completou os dezessete anos, não sabe nada da vida, sabe apenas que está em um jogo de gozo ou morte. Não tem filosofia ou propósito além disso. Não sabe o nome do outro, do seu colega de libações ou morte, não sabe o nome de suas vítimas, não se preocupa além de jogar. É a vida.
Mas a sociedade se pune a si mesmo ao manter desejos ocultos e participações criminosas na cumplicidade mental de pessoas que cumprem um papel, ou deveriam cumprir, que sabem refletir ainda que primariamente e percebem que a vida não é um jogo de prazer ou morte. Expressam o desejo da ordem, mas associam-se às variações do mal que a todos castiga. Castigar o outro e evitar sistematicamente que ele possa existir pela certeza do sofrimento imposto, esse o prazer em se perpetuar o mal dentro de si.
Meu encontro com Freud

Um cachimbo Dunhill a preço de ocasião foi por demais sedutor sobre minha predileção pelo mais charmoso ítem da tabacaria. Mais que umas centenas de euros, o prazer de uma peça que raramente seria utilizada, a única vez naquela manhã, se muito.
A tabacaria já antiga, situava-se em pequena rua, próxima à Praça dos Heróis, em Veneza e a esperança de uma manhã quente de primavera logo se frustrara pela bruma espessa que encobria o monumento de general montado a cavalo a saudar os heróis da nação, trazendo para a estação das flores momentos de inverno. Um banco de praça, no frio, momento de saborear o tabaco inglês, importado da Virgínia e misturado com especiarias que o tornavam atrativo e caro.
Não se traga a fumaça do cachimbo, ela é saboreada na boca e logo eliminada. Até que a fumaça preencha de delícias o fumador, todo um ritual deve ser seguido, desde a forma de abrir a lata do tabaco à pressão certa que deve ser imposta ao fumo na fornilha do cachimbo _ esse o grande segredo que aprendi a duras penas, para cada mistura, uma pressão ligeiramente diferente. Outro ponto crucial é o tipo de isqueiro, ou fósforos, que devem ser os apropriados para cachimbos. Sobre o cachimbo e seus tipos, é uma história maior, mais detalhada, com indicações e instruções riquíssimas. Muitas árvores centenárias cederam todo o seu tronco para a confecção de uma única peça, para a ira dos novos ecologistas e para o prazer dos que tiveram a oportunidade de terem para si a fornilha de uma urze branca centenária do mediterrâneo.
O banco gelado como o vento que não dissipava a bruma, me fez tomar uma postura encolhida e mesmo assim acendi o cachimbo a longas baforadas para que o tabaco enfim se transformasse em uma usina da prazerosa fumaça. Viena, cidade que no final do passado século foi o berço das revoluções da filosofia e da psicologia que definiriam os rumos de nosso século. Viena de Sigmund Freud, da praça dos Heróis, de um brasileiro com seu cachimbo sentado no banco da praça, sendo envolvido pela nicotina que agudamente afetava a percepção, a ponto de já não enxergar além da vista meio palmo, tal bruma que envolvia não apenas a praça e a cidade, mas meus olhos.
Alguém me pediu licença e sentou-se ao meu lado, saboreando um charuto tipo longo. Os olhos clarearam repentinamente ao divisar a figura de Sigmund Freud, conversando comigo em fluente língua da mente, que creio dominar bem porque entendia e respondia.
Trazia o célebre médico vienense, um grosso prontuário, me disse ser o caso de Anna G. e o abriu exatamente nas conclusões sobre a histeria da mulher que a cegara temporariamente, até ser curada pela psicanálise. Discordou de mim de efeito semelhante ao da hipnose, mostrou-me a contundência da resposta pela remissão total dos sintomas, no caso a cegueira.
De alguma forma o médico vienense preocupou-se com meu bem estar, talvez achou que eu sentia frio, porque estendeu sobre meus joelhos a grossa capa de lã que carregava, ao mesmo tempo que me perguntou qual minha opinião sobre as suas idéias. Uma baforada maior, quase sufocado porque o tabaco era demasiado forte. Complexo de Édipo, como é difícil compreender e aceitar, como mudou a história essa percepção que a civilização ocidental tem nos traumas do nascimento e da infância a causa de boa parte de seus sofrimentos.
Uma nova baforada e percebi que já não estava sob tão intenso efeito da nicotina. Pigarreei para deixar a garganta livre e expressar minha opinião mas repentinamente me vi solitário no banco que ocupava, a bruma se dissipara e o sol saíra, trazendo consigo ruídos e pessoas, levando embora Freud. Do amigo, ficou o delírio e a capa de lã que ainda guardo em meu armário.
Um Esquizofrênico invadiu minha mente!
Um sonho e estou diante de um louco, conhecido por suas várias internações, que me conta sua vida, cada detalhe de seu sofrimento, despertando sentimentos que transformam sua face, transfigurando o olhar alucinado em marejados olhos de dor e esperança de melhora. No sonho, os recursos são os da Magia e uma tela projeta existências por ele vividas, posições de mando e comando, grandioso e imponente homem, eivado do orgulho e da ignorância, entrando em bancarrota ao mirar-se apenas em si, esquecendo do outro. As imagens continuam vivas, ocupando um sonho dentro do sonho, provocando mais lágrimas e dor em J., e agora mostram a vida de um homem no monoideísmo, o estreitar de horizontes, a redução do eu por uma única e persistente idéia, o afogar dos ideais no mar sufocante do pensamento doentio.
A projeção na tela do sonho chega ao fim antes que do sonho tenha saído, e encontro J. um tanto aliviado, por conhecer sua história, ao menos assim interpreto, pois é meu produto onírico que vivencio e partilho agora com vocês. Mas como todo bom e delicioso sonho, J. de súbito se movimenta, em tresloucada gargalhada, assumindo a postura corporal e muscular adquirida nos mais de trinta anos de Esquizofrenia, e sai em disparada, gritando as mesmas ameaças que há quase quinze anos dele escuto.
Desperto e em pouco tempo estou diante de um paciente, com diagnóstico de transtorno mental, o mesmo personagem de meu sonho. Olho de modo diferente para ele, olhar terno, mas também curioso, terá sido realmente sonho, ou foi uma vivência transcendente e transpessoal? Teria ele lembrança do que vivemos, ou foi tudo produto de minha mente?
Na América, como em um bom número de países do Hemisfério Norte, a cultura popular de alguma forma é sistematizada em experimentos científicos, que visam comprovar ou negar o que é de domínio das pessoas e transmitido de forma não linear, não verticalizado, através das gerações. Um grupo de pesquisadores americanos reuniu-se com o propósito de estudar o papel dos sonhos em determinar a história de vida de uma pessoa e indicarem a solução para os problemas que elas estejam vivendo. A proposta do experimento foi reunir um grupo de pessoas comuns que tinham o propósito de sonhar buscando auxílio. e a eles apresentar a pessoa, que era o objeto de estudo. A esses sonhadores nada foi informado, a eles foi feita a proposta de sonharem com a pessoa, usando para isso o desejo desses sonhadores de socorrer o problema que não conheciam. Após 4 semanas, a pessoa-alvo do estudo era colocada diante do grupo dos que se propuseram a sonhar e cada um relatava o que havia anotado dos sonhos que tiveram com a pessoa. Impressionante o disparate entre o relato individual e sua transformação quando colocado como relatório do grupo. Não apenas a vida da pessoa era descrita, mas o problema relatado e a solução apontada.
Volto novamente à figura de J., que se posicionava à minha frente naquele momento, olhando de forma diferente, aqui me questionava se não era apenas forte impressão de minha parte. Um sorriso em seu rosto substituiu minha habitual apreensão por forte simpatia, esse laço mágico que nos liga ao outro em sensação de plena confiança. Seus passos quase apressados em minha direção iam ganhando força junto com um sorriso que se esboçava e se transformava. Quase grudado em mim, repentinamente, solta uma gargalhada de louco, me empurra e diz, acorda doutor!
A projeção na tela do sonho chega ao fim antes que do sonho tenha saído, e encontro J. um tanto aliviado, por conhecer sua história, ao menos assim interpreto, pois é meu produto onírico que vivencio e partilho agora com vocês. Mas como todo bom e delicioso sonho, J. de súbito se movimenta, em tresloucada gargalhada, assumindo a postura corporal e muscular adquirida nos mais de trinta anos de Esquizofrenia, e sai em disparada, gritando as mesmas ameaças que há quase quinze anos dele escuto.
Desperto e em pouco tempo estou diante de um paciente, com diagnóstico de transtorno mental, o mesmo personagem de meu sonho. Olho de modo diferente para ele, olhar terno, mas também curioso, terá sido realmente sonho, ou foi uma vivência transcendente e transpessoal? Teria ele lembrança do que vivemos, ou foi tudo produto de minha mente?
Na América, como em um bom número de países do Hemisfério Norte, a cultura popular de alguma forma é sistematizada em experimentos científicos, que visam comprovar ou negar o que é de domínio das pessoas e transmitido de forma não linear, não verticalizado, através das gerações. Um grupo de pesquisadores americanos reuniu-se com o propósito de estudar o papel dos sonhos em determinar a história de vida de uma pessoa e indicarem a solução para os problemas que elas estejam vivendo. A proposta do experimento foi reunir um grupo de pessoas comuns que tinham o propósito de sonhar buscando auxílio. e a eles apresentar a pessoa, que era o objeto de estudo. A esses sonhadores nada foi informado, a eles foi feita a proposta de sonharem com a pessoa, usando para isso o desejo desses sonhadores de socorrer o problema que não conheciam. Após 4 semanas, a pessoa-alvo do estudo era colocada diante do grupo dos que se propuseram a sonhar e cada um relatava o que havia anotado dos sonhos que tiveram com a pessoa. Impressionante o disparate entre o relato individual e sua transformação quando colocado como relatório do grupo. Não apenas a vida da pessoa era descrita, mas o problema relatado e a solução apontada.
Volto novamente à figura de J., que se posicionava à minha frente naquele momento, olhando de forma diferente, aqui me questionava se não era apenas forte impressão de minha parte. Um sorriso em seu rosto substituiu minha habitual apreensão por forte simpatia, esse laço mágico que nos liga ao outro em sensação de plena confiança. Seus passos quase apressados em minha direção iam ganhando força junto com um sorriso que se esboçava e se transformava. Quase grudado em mim, repentinamente, solta uma gargalhada de louco, me empurra e diz, acorda doutor!
Assinar:
Comentários (Atom)


