
Um cachimbo Dunhill a preço de ocasião foi por demais sedutor sobre minha predileção pelo mais charmoso ítem da tabacaria. Mais que umas centenas de euros, o prazer de uma peça que raramente seria utilizada, a única vez naquela manhã, se muito.
A tabacaria já antiga, situava-se em pequena rua, próxima à Praça dos Heróis, em Veneza e a esperança de uma manhã quente de primavera logo se frustrara pela bruma espessa que encobria o monumento de general montado a cavalo a saudar os heróis da nação, trazendo para a estação das flores momentos de inverno. Um banco de praça, no frio, momento de saborear o tabaco inglês, importado da Virgínia e misturado com especiarias que o tornavam atrativo e caro.
Não se traga a fumaça do cachimbo, ela é saboreada na boca e logo eliminada. Até que a fumaça preencha de delícias o fumador, todo um ritual deve ser seguido, desde a forma de abrir a lata do tabaco à pressão certa que deve ser imposta ao fumo na fornilha do cachimbo _ esse o grande segredo que aprendi a duras penas, para cada mistura, uma pressão ligeiramente diferente. Outro ponto crucial é o tipo de isqueiro, ou fósforos, que devem ser os apropriados para cachimbos. Sobre o cachimbo e seus tipos, é uma história maior, mais detalhada, com indicações e instruções riquíssimas. Muitas árvores centenárias cederam todo o seu tronco para a confecção de uma única peça, para a ira dos novos ecologistas e para o prazer dos que tiveram a oportunidade de terem para si a fornilha de uma urze branca centenária do mediterrâneo.
O banco gelado como o vento que não dissipava a bruma, me fez tomar uma postura encolhida e mesmo assim acendi o cachimbo a longas baforadas para que o tabaco enfim se transformasse em uma usina da prazerosa fumaça. Viena, cidade que no final do passado século foi o berço das revoluções da filosofia e da psicologia que definiriam os rumos de nosso século. Viena de Sigmund Freud, da praça dos Heróis, de um brasileiro com seu cachimbo sentado no banco da praça, sendo envolvido pela nicotina que agudamente afetava a percepção, a ponto de já não enxergar além da vista meio palmo, tal bruma que envolvia não apenas a praça e a cidade, mas meus olhos.
Alguém me pediu licença e sentou-se ao meu lado, saboreando um charuto tipo longo. Os olhos clarearam repentinamente ao divisar a figura de Sigmund Freud, conversando comigo em fluente língua da mente, que creio dominar bem porque entendia e respondia.
Trazia o célebre médico vienense, um grosso prontuário, me disse ser o caso de Anna G. e o abriu exatamente nas conclusões sobre a histeria da mulher que a cegara temporariamente, até ser curada pela psicanálise. Discordou de mim de efeito semelhante ao da hipnose, mostrou-me a contundência da resposta pela remissão total dos sintomas, no caso a cegueira.
De alguma forma o médico vienense preocupou-se com meu bem estar, talvez achou que eu sentia frio, porque estendeu sobre meus joelhos a grossa capa de lã que carregava, ao mesmo tempo que me perguntou qual minha opinião sobre as suas idéias. Uma baforada maior, quase sufocado porque o tabaco era demasiado forte. Complexo de Édipo, como é difícil compreender e aceitar, como mudou a história essa percepção que a civilização ocidental tem nos traumas do nascimento e da infância a causa de boa parte de seus sofrimentos.
Uma nova baforada e percebi que já não estava sob tão intenso efeito da nicotina. Pigarreei para deixar a garganta livre e expressar minha opinião mas repentinamente me vi solitário no banco que ocupava, a bruma se dissipara e o sol saíra, trazendo consigo ruídos e pessoas, levando embora Freud. Do amigo, ficou o delírio e a capa de lã que ainda guardo em meu armário.



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