quinta-feira, 1 de abril de 2010

Cumplicidade Mental

Um carro emprestado a um criminoso, facilitando a fuga e eis que um novo rosto surge importante na história sangrenta da morte de Glauco e Raoni. Motivos para ter levado o assassino e depois cedido o carro irão surgir, um desfile de fatos e cenas comporão o leitmotiv da ópera de sangue e loucura. Um só motivo estará guardado com o agora cúmplice do psicótico que desferiu os tiros, que cindiu o véu da tolerância com a erva do Santo Daime.
Fernanda Viana tinha 16 anos quando foi mantida refém em um hotel em Feira de Santana na Bahia. O bandido que a deteve era pouco mais velho que ela, ganhou notoriedade no Brasil, virou filme e livro, mas não escapou da morte dentro da prisão. Leonardo Pareja despertou não apenas a paixão de Fernanda, parente próxima do então senador Antônio Carlos Magalhães, mas também a devoção de muitas mulheres. A causa real dessas paixões não é diferente do motivo de Felipe Iasi em ceder seu carro para a fuga de Cadu.
Como não é diferente do escândalo homossexual envolvendo um padre de Arapiraca, Alagoas, que não titubeou em expor a Igreja Católica aos efeitos de sua sanha proibida pelo celibato e somando-se às outras centenas de ocorrências mundo afora, constrangendo o Catolicismo a se defender do achaque de materialistas cujo interesse maior é a demolição do edifício cristão do seio da Humanidade.
Nietzsche teve a aguçada percepção que o povo germânico de sua época nutria em si os germes do mal que eclodiriam nas duas guerras mundiais que envolveram a Alemanha. Sua filosofia trouxe para o plano das interações da realidade a Filosofia, obrigou que se dobrasse ao conhecimento do homem e de suas volições.
Rollo May enxergou que o homem da década de 50 se comportava qual o da era vitoriana, fechado em torno de uma casca, enxergava o mundo tentando dele se isolar. O resultado desse comportamento é a falta de parâmetro para perceber a si mesmo. Somos a medida do outro.
Crianças nutrem figuras imaginárias em seu universo infantil. Heróis e bandidos interagem em contínua luta nos papéis que ela assume. O que rege essa interação é a percepção da criança que se julga centro e criadora do mundo e de tudo o que a cerca, os papéis dos outros são definidos por sua mente a cada movimento. Levi-Brhul chamou essa relação de participação mística, ao estudar civilizações indígenas isoladas.
Adultos fechados em si mesmos tendem a se julgar centro do mundo, seus pensamentos não alcançam o outro e são auto-referentes. O que não é excluído do seu mundo é usado como participante de um papel. O bandido acobertado, ou levado a cabo de grande amor, a aventura proibida que coloca em risco instituições grandiosas e fundamentais.
Era apenas um caldo quente e escaldante que fazia-nos suar na noite do domingo que passou. Mas a televisão tirou minha atenção do caldo e da amada, mostrou a entrevista de um menor de vida marginal, assaltante e assassino. A vida é um jogo, ensinou ele, se ganhamos, dividimos o prêmio, se a gente morre é porque perdeu o jogo.
O rapaz que disse isso não completou os dezessete anos, não sabe nada da vida, sabe apenas que está em um jogo de gozo ou morte. Não tem filosofia ou propósito além disso. Não sabe o nome do outro, do seu colega de libações ou morte, não sabe o nome de suas vítimas, não se preocupa além de jogar. É a vida.
Mas a sociedade se pune a si mesmo ao manter desejos ocultos e participações criminosas na cumplicidade mental de pessoas que cumprem um papel, ou deveriam cumprir, que sabem refletir ainda que primariamente e percebem que a vida não é um jogo de prazer ou morte. Expressam o desejo da ordem, mas associam-se às variações do mal que a todos castiga. Castigar o outro e evitar sistematicamente que ele possa existir pela certeza do sofrimento imposto, esse o prazer em se perpetuar o mal dentro de si.

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