terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

O Tumor e Os Dentes


Ela chegou com as mãos pesadas de exames de sangue e de imagem. tinha um diagnóstico e queria uma opinião. Fora encaminhada para a minha opinião, na verdade para a opinião do especialista, casualmente eu e os residentes da especialidade. HGG, salas da Endocrinologia.
Contou sua história para a atenção dos ouvidos de uma residente, enquanto outra analisava os exames. Eu não conseguia ouvir nada, abstraído que estava por algo que me chamara a atenção _ os dentes de Ana, esse o provável nome, eram enormes e fugiam de sua boca, de forma que os lábios superiores não os cobriam além do terço inicial, deixando-os cobertos por uma crosta de saliva ressecada. Eram amarelados, enormes, estranhos.
A consulta demorada envolveu também os colegas da Neurocirurgia e ao final pediram minha opinião. A paciente, um tanto apreensiva, percebera que eu não tirara dela a atenção.
_Qual sua conduta, doutor?
_Os dentes, respondi. Como são grandes!
_Como? A pergunta foi em coro, que envolveu também a paciente.
_ Resolver o tumor é fácil, remédio e cirurgia terão efeito, difícil vai ser encontrar um dentista que consiga corrigir esses dentes tão grandes e lábios que não se fecham!

sábado, 14 de fevereiro de 2009

O Homem que Virou Livro

Ele entrou um tanto ansioso, como se pela primeira vez avistasse um médico na condição de paciente. Inquieto, não sabia como conduzir suas mãos que insistiam em não ter lugar. A língua tocava com seu corpo o céu da boca, ficando quase grudada no palato duro de quase seca que estava. A respiração curta e um pouco acelerava combinava com os olhos brilhantes que tudo investigavam e em nada fixavam. Enfim pôde me cumprimentar e se sentou.
"Eu tenho todas as doenças", começou ele. "Posso escolher quais delas podem interessar a essa consulta,"disse ele tirando de uma mochila um livro de Medicina _ Harrison"s Textbook of Internal Medicine, versão americana. "Tenho todas!"
Ora bolas, retruquei eu dizendo que as tinha e ainda mais algumas, apontando para meu duplo volume do Scriber, um livro texto de Erros Inatos do Metabolismo. Ele se fez sério, olhou profundamente para mim e disse: "Não estou brincando, eu estou doente."
Já que enfim ele tinha todas as doenças, pedi a ele que começássemos por ordem alfabética, com a letra A e logo alertei que por ser especialista em Endocrinologia, não atenderia Alergia ou Asma, ou ainda Aspergilose ou Anemia, mas Addison sim, trataria, bem como os Adenomas de hipófise, secretores e não secretores.
De súbito, ele se levantou, me disse que o sofrimento dele não seria compreendido por mim, que afinal eu achava ser ele um hipocondríaco, quando na verdade era um doente. "E doente de doenças sérias", complementou. Antes que saísse, perguntei do livro, onde conseguira o Harrison, a última edição. "Sou médico, colega", e novamente sentado, tentando se acomodar, completou, "também especialista, mas em transtornos mentais".
E me contou que há alguns anos lia diariamente todos os livros texto de Medicina, estudando cada doença, cada sintoma, cada sinal, estudando com tamanha intensidade que se tornara o próprio livro. Foi a dica! Dei o cartão do Pereira, disse que ligasse para ele, afinal apenas um livreiro poderia oferecer a ele alguma solução.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Adeus, poeta!

Não soube me dizer o motivo da consulta, naquele dia o poeta entrou em meu consultório e despejou suas afliçöes e amarguras. Casado de pouco, descobrira que o amor eterno sofre amarguras e revezes, eram momentos de revezes aqueles. Sua conversa elíptica era coberta de interrupções, perdera a continuidade que caracterizava a verborragia fantástica, destruidora, iconoclasta, sua marca de identidade, mas que sempre se encerrava com juras de devoção eterna. Naquela tarde era uma flor que murchara.
Atraiu para si todos os revezes do pensamento confuso. Se dizia catlisador do inconsciente e agora vivia os tormentos do Inconsciente materializado na forma do arquétipo feminino, sedutor, mulher, mãe e filha.
O poeta se foi. Infarto fulminante. Não teve como me levar os exames, tenho certeza que nem os pedi. Sua visita, a última visita, foi sua despedida. Ficou de me deixar a caneta que nunca teve e a pena que jamais usou e ainda espero que de onde esteja o poeta, que seja cumprida a sua promessa.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Mamo, o psicopata


Ele tinha trejeitos, com certeza os tinha e Mamo podia imaginá-los todos só de ouvir pelo rádio jeito que falava cada palavra, acentuando em excesso as paroxítonas, abrindo demais as sílabas tônicas com a vogal o. A certeza crescia com a raiva que passou a nutrir. Em poucos minutos já sabia quem era, sua ocupação, a empresa onde trabalhava. Engenheiro, responsável pelo acompanhamento de novas tecnologias. A entrevista continuava, mas a cabeça de Mamo já estava longe.
O domingo trouxe o sol em sua manhã de verão. Já se passava das nove. Nos trópicos o calor não espera o meio do dia para se manifestar, no meio da manhã algumas pessoas já tiram a camisa buscando alívio. Naquela manhã, Mamo estava sem camisa até ligar o rádio. A raiva cortou seu suor, vestiu a camisa e agora já não era tomado por outro pensamento senão o de higienizar o mundo. Era essa sua missão, era esse o seu destino.
Mamo me descreveu sua história e contou sobre seu crime não com a frieza do psicopata, mas com o fervor do crente que é chamado para uma missão.
Não conheci sua vítima, mas foi apenas mais uma entre pelo menos treze. Foi o que o policial me disse. E eu estava diante de um homem frio, assassino cruel, que tinha predileção por homossexuais. Ao contrário de outros criminosos, não mantinha relação com suas vítimas, nem as atraía para algum lugar para executa-las, mas dizia cumprir a ordem dos anjos. Ia até a casa, executava geralmente com arma de fogo e saía tranquilo,como se nada tivesse acontecido.
Mamo estava na minha frente, eu nada tinha a temer, mas seus olhos brilharam a ponto de quase iluminar o pronto socorro onde eu, quartanista de Medicina, estagiava. Acabara de entrar Renato, um técnico de enfermagem falante, que acentuava em excesso as paroxítonas e abria demais as sílabas tônicas com a vogal o.
 
Yoomp