sábado, 14 de fevereiro de 2009

O Homem que Virou Livro

Ele entrou um tanto ansioso, como se pela primeira vez avistasse um médico na condição de paciente. Inquieto, não sabia como conduzir suas mãos que insistiam em não ter lugar. A língua tocava com seu corpo o céu da boca, ficando quase grudada no palato duro de quase seca que estava. A respiração curta e um pouco acelerava combinava com os olhos brilhantes que tudo investigavam e em nada fixavam. Enfim pôde me cumprimentar e se sentou.
"Eu tenho todas as doenças", começou ele. "Posso escolher quais delas podem interessar a essa consulta,"disse ele tirando de uma mochila um livro de Medicina _ Harrison"s Textbook of Internal Medicine, versão americana. "Tenho todas!"
Ora bolas, retruquei eu dizendo que as tinha e ainda mais algumas, apontando para meu duplo volume do Scriber, um livro texto de Erros Inatos do Metabolismo. Ele se fez sério, olhou profundamente para mim e disse: "Não estou brincando, eu estou doente."
Já que enfim ele tinha todas as doenças, pedi a ele que começássemos por ordem alfabética, com a letra A e logo alertei que por ser especialista em Endocrinologia, não atenderia Alergia ou Asma, ou ainda Aspergilose ou Anemia, mas Addison sim, trataria, bem como os Adenomas de hipófise, secretores e não secretores.
De súbito, ele se levantou, me disse que o sofrimento dele não seria compreendido por mim, que afinal eu achava ser ele um hipocondríaco, quando na verdade era um doente. "E doente de doenças sérias", complementou. Antes que saísse, perguntei do livro, onde conseguira o Harrison, a última edição. "Sou médico, colega", e novamente sentado, tentando se acomodar, completou, "também especialista, mas em transtornos mentais".
E me contou que há alguns anos lia diariamente todos os livros texto de Medicina, estudando cada doença, cada sintoma, cada sinal, estudando com tamanha intensidade que se tornara o próprio livro. Foi a dica! Dei o cartão do Pereira, disse que ligasse para ele, afinal apenas um livreiro poderia oferecer a ele alguma solução.

Um comentário:

  1. Cada vez que por aqui passo fico mais encantado! Juro por deus que ainda não me decidi se fico com a literatura ou com a medicina, ou melhor, se teus casos são reais ou frutos da imaginação. Na verdade, reais não são... Podem ser, isso sim, surreais!

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Yoomp