quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O Verdadeiro Culpado

           Os olhos de Beatriz na tarde de dois de julho eram feitos de lágrimas, cristalinos de dor e decepção, juntavam-se aos olhos de centenas de milhões de brasileiros a lamentarem a precoce eliminação da seleção da Copa do Mundo.
            Milhares de análises foram feitas, o patente desequilíbrio do time contrastante com o bom futebol do primeiro tempo nunca terá explicação, mas logo foi apontado um culpado, Felipe Melo. É meu dever de brasileiro pedir a todos, não culpem Felipe Melo, a derrota do Brasil tem um responsável e o nome dele é Mick Jagger.
            Muitos anos atrás fui à biblioteca da PUC-Rio em busca de um tesouro, um livro esgotado de Lèvi-Brhull. Com a devida orientação da bibliotecária, percorri corredores formados por estantes repletas de livros até chegar a uma mesa no fundo do grande salão, lugar iluminado por pequena janela próxima do teto muito alto da edificação, o que me fez sentir como em um filme holiwoodiano, um verdadeiro Indiana Jones do sertão em pleno litoral brasileiro. Mas atrás daquela mesa estava alguém maior que o próprio Jones, talvez a fonte oculta de inspiração de Spielberg para a criação do personagem.
            Frei Extensum, esse era seu nome, pelo menos foi como se apresentou, inicialmente ralhou comigo por desejar ler um autor não mais lido, apenas citado e impôs-me uma sabatina para saber se deveria ou não liberar-me a obra. Concluiu que eu não era a pessoa indicada para aquele livro, mas me convidou para um café em uma minúscula sala, fora do prédio da biblioteca, no fundo de pequena capela dentro da PUC.
            O café frio de cafeteira devia ter uma dezena de horas, mesmo assim o frei o apreciou com gosto e tive que aprender a contorcer os músculos faciais para transformar a expressão de asco em satisfação mas enquanto isso me contou sua vida de antropólogo entre os nativos malawee, na Tailândia e como ele aprendeu algo mais que Lèvi-Brhull. Pegou um livro com capa de couro, na verdade um caderno de anotações, mas antes contou-me sobre uma tradição daquele lugar distante e exótico. O Supremo Imperador do Mal possuiria agentes na Terra que teriam por objetivo atender aos pedidos que os homens não ousariam pedir a Deus. Esses agentes seriam reconhecidos pelo jeito peculiar de suas faces e de seus sorrisos, que os tornam à feição do curinga dos baralhos.
            Enquanto me contava a tradição e saboreava seu café frio, o frade sorria muito e me disse ao final, com voz muito grave, que apenas deveria revelar essa história quando muitas lágrimas corressem por obra desses agentes do mal. Abriu o caderno com capa de couro e mostrou alguns desenhos e formas geométricas para reconhecer esses agentes, me passando as medidas exatas. De imediato, no exercício em que fui iniciado pelo frei antropólogo, logo reconheci os dois principais agentes na Terra, William Dafoe e Mick Jagger.
            Copa do Mundo da África, experiência vibrante para milhões de adolescentes que eram crianças em 2002, esperança de título para o Brasil. Antes do jogo das quartas com a Holanda, na platéia de Estados Unidos e Gana, a imagem de Mick me fez tremer, ele estava lá, na África do Sul, certamente para espalhar o mal na forma de azar, desequilíbrio, derrota!  Ao lado do presidente Clinton (uma vez presidente, sempre presidente!), seu sorriso contagiou de azar o selecionado americano e foram derrotados pelo selecionado africano.
            Liguei para treze amigas católicas devotadas, todas elas com idade superior a setenta anos e pedi que rezassem treze terços até a sexta-feira, seria uma forma de neutralizar a possibilidade de Mick torcer para o Brasil e com isso contagiar também  nosso selecionado. Uma delas não me atendeu, estava adoentada e substituta não havia naquele instante porque a próxima da lista completaria setenta anos no dia 11 de julho. Frei Extensum me ensinou que para neutralizar os efeitos desses agentes, apenas treze senhoras idôneas com setenta anos completos poderiam rezar os treze terços de salvação do mal malawee!
            Me desculpem, irmãos brasileiros, eu bem que tentei mas não foi possível. A maldição de Mick Jagger nos venceu e perdemos a chance do hexacampeonato de futebol. Mas tenho agora enormes esperanças, ontem à noite, com voz débil pela idade quase centenária, me ligou frei Extensum, tocado de extrema felicidade, Mick Jagger e William Dafoe participariam ativamente da campanha eleitoral brasileira, torcendo vibrantemente por Dilma Roussef, Deus seja louvado!

Histeria, experiências em um grupo mediúnico


           M., sexo feminino, 27 anos, casada, dois filhos. Trabalha como secretária em clínica médica, foi trazida ao Grupo das Terças, equipe de desobsessão do Sanatório Espírita de Anápolis, por seu empregador, médico, cirurgião plástico, espírita. Relatava história de início súbito, há menos de dois meses, quando passou a não apenas perceber vultos como perder o controle de si e “ser tomada”pelo espírito de uma prima desencarnada. Durante todos os dias de trabalho, nos últimos dois meses, seu patrão esteve mobilizado em auxiliá-la, não se detendo inclusive em abandonar o consultório para tentar socorro em casas espíritas que mantinham atendimento durante o horário comercial.
Em nosso grupo, quando diante dos médiuns, ao início do passe, logo modificava sua voz, contorcia os membros superiores e falava de modo aflito, por vezes agressivo, discurso de poucas palavras, que se resumiam em “Eu vou matá-la, vou trazê-la para cá”. Observei detidamente seu biótipo, seus movimentos corporais, seu discurso quando “incorporada”. Ao final da reunião, seu rosto era suave mas seu olhar não escondia a sensação de prazer realizado.
            Ao ser questionado pelo colega médico e patrão de M. sobre o caso por ele considerado como mediunidade ostensiva, recomendei o uso de ansiolíticos e psicoterapia. Confirmei com ele a impressão inicial que M. estava com problemas conjugais sérios. Troquei o diagnóstico de mediunidade pelo de Manifestações Somatoformes, porque o termo Histeria soou agressivo a M.
            Na análise com o grupo, do caso de M. realcei os seguintes pontos que me indicaram o diagnóstico que fiz do caso a nós apresentado:
·      M. iniciou suas supostas manifestações mediúnicas de modo súbito mas no ambiente de trabalho, onde o patrão era espírita;
·      Estava com problemas conjugais sérios, sem apoio de sua família de origem para resolvê-los;
·      Em cada manifestação tida como mediúnica, recebia total atenção do patrão, que se estendia para além do horário de trabalho;
·      M. deu passividade apenas quando estava sozinha na sala de passes; sua manifestação se iniciou com movimentos de contorção do braço esquerdo, hiperpnéia, voz inicialmente gutural e poucas palavras. Não havia discurso lógico na passividade mediúnica, não haviam elementos para identificação de uma personalidade, mas fragmentos de discurso sem espontaneidade.
·      Havia verdadeiro prazer por parte dela ao final do passe, como se agradasse ao patrão.
As manifestações chamadas anteriormente de histéricas, atualmente agrupadas na classe das manifestações somatoformes, ainda confundem grupos mediúnicos, porque podem ocorrer em pessoas que inconscientemente buscam um ganho pessoal ante várias frustrações, bem como podem também estar presentes em casos de obsessão espiritual.
A casuística do Grupo das Terças, em casos de histeria, nos últimos dez anos, se deu apenas com casos a nós encaminhados como Obsessão ou “Mediunidade”.
Foram 4 casos de pessoas da comunidade, 2 de pacientes internados no Hospital Espírita de Psiquiatria. A distribuição entre os sexos foi 5 casos de mulheres e 1 caso de homem.
O caso masculino era de paciente com diagnóstico de Esquizofrenia Paranóide, internado para tratamento; os casos femininos não tinham diagnóstico psiquiátrico, exceto um caso de Dependência Química.
Dos casos da comunidade, todos eles iniciaram após sensação de perda, real ou imaginária, em 3 deles havia a suposta manifestação de um parente morto que queria levar sua vítima, mas sem que houvesse manifestação plena ou uma personalidade pudesse ser identificada. Em 1 caso, a manifestação era teatral, onde a pessoa relatava o que supostamente via no plano espiritual.
Dos casos da comunidade, apenas o que relatava visões do plano espiritual se engajou no movimento espírita e hoje trabalha como médium passista em uma casa.
Como conclusão, a histeria é diagnóstico infreqüente em nosso grupo, por trabalhar dentro de Hospital especializado. É manifestação incomum de mediunidade, suas manifestações são seguidas de ganho pessoal do sujeito, quer pela satisfação em poder agradar, quer pela mobilização que consegue atingir.

Feliz por um dia


           Hélio era pessoa de poucas palavras e quando as tinha, engolia o final de cada uma delas de modo que era praticamente incompreensível a sua fala. Talvez para compensar sua dificuldade, antecipava-se sempre às necessidades dos outros, assim não era preciso falar nada além de agradecer os inúmeros "muito obrigado" que ouvia o dia todo. Hélio também tinha uma história clínica, obesidade grave e doença coronariana que o coroara com pontes de safena _ interessante como aqueles que são submetidos a cirurgia de revascularização miocárdica apresentam o procedimento adotado de forma a dar a alteridade de um nome, 4 safenas e 1 mamária é o nome mais comum.
            Voltando à história clínica de Hélio, que era o que me interessava, avaliação detalhada de um cirurgião de cabeça e pescoço revelou um problema simples na conformação do maxilar inferior, a antiga mandíbula, que provocava falha na abertura da boca quando ele falava, problema que a Fonoaudiologia resolve em seu cotidiano, sem muitas dificuldades. Por que Hélio não teve esse benefício?
            "Nem sei o que profissão é essa doutor, sou homem da roça, criado com simplicidade e privação, não tinha jeito de procurar essa pessoa não", foi o que conseguimos traduzir do que falou Hélio.
            O laudo psicológico de Hélio demorou mais a ficar pronto. Ante a pressa da equipe, a responsável sumarizou: "Como ele engole palavras, comida e afetos, essa mistura explosiva trouxe subserviência, obesidade e infarto, o resto converso mais a frente".
            A proposta para o tratamento de Hélio envolvia também as necessidades sociais e a equipe de assistência social já havia realizado amplo levantamento da realidade do paciente, mostrado em curto tempo aquilo que era esperado _ moradia simples, participação em grupos sociais apenas de forma passiva, espírito de liderança ausente.
            Enquanto conhecia o que seria o Hélio em relação ao mundo que o cercava, mais curioso ficava sobre quem realmente seria aquele homem em relação ao seu mundo interno. Sabia de seu comportamento auto-destrutivo, a compulsão alimentar incontrolável, a frustração e mágoa de não ser reconhecido apesar de ser extremamente solícito, a dificuldade em expressar o que sentia porque nem falar corretamente sabia.
            Quase próximo da alta hospitalar de Hélio, um fato se deu. Visitadores voluntários, todos vestidos de roupas circenses e maquiagem de palhaços invadiram a enfermaria, enchendo de brincadeiras e alegria o ambiente sério e restritivo, repleto de sisudez renomeada de ambiente profissional.Hélio, ao ouvir o barulho alegre das pessoas, as brincadeiras e gargalhadas, pulou da cama sem dificuldades e se entregou de tal modo que cantou sem dificuldades e sem engolir palavras; se mostrou ágil, conversou com todos em volta, se soltou. Hélio se descobrira naquele instante. Buscou o estojo de maquiagem da equipe de voluntários, se pintou de palhaço e também usou uma peruca que lhe foi oferecida.
            A médica residente que acompanhou os movimentos de Hélio observou detalhadamente cada passo, cada momento e registrou no prontuário médico. Conhecíamos um pouco mais daquele paciente, e fez questão de me ligar.
            Hélio estava internado sob minha responsabilidade, caberia à minha equipe a sua alta e toda orientação e seguimento após a alta hospitalar. Mas logo soube que caberia a nós lavrar o desfecho final de Hélio. E assim morreu Hélio, feliz, no seu único dia de felicidade na terra.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

A família que nossos jovens irão construir


Observo o meu filho adolescente. Sentado diante do computador, durante horas, comunica-se gestual e emocionalmente com uma tela de LED e uma sequência de imagens quentes, quase reais não fossem formadas por combinações binárias frias e manipuladas livremente por quem avança apenas um pouco na manipulação de programas específicos. Várias telas pululam, janelas chama a atenção para nova mensagem, novo recado, novos convites.
Percebo a fragilidade das fronteiras físicas do lar. A intimidade compartilhada nas redes sociais e nos mensageiros eletrônicos da internet tornam as casas-computadores dos amigos a extensão do próprio lar.
Além do computador, encontros e convívios com amigos antes virtuais.
Os muros do meu adolescente vão além das paredes de casa, uma calça é esquecida no guarda-roupas de um amigo, uma camisa estranha repousa no dele e seus sentimentos e emoções são partilhados não apenas nos limites de minha casa, mas também com sua rede de amigos.
Mas o que é uma rede de amigos e como esses relacionamentos se dão? Outro dia ouvia uma psicóloga gabaritada falar do quão adolescente são as redes sociais mas terminou a entrevista anunciando a página dela no Orkut.
E relacionamentos surgem das redes sociais, a ponto de se solidificarem em uniões mais sérias, geram visitas aventureiras ou sinceramente românticas. Mas os olhares que as fotos mostram e as webcam mal refletem nem sempre se direcionam para explorar a profundidade do outro, como os toques virtuais mal passam das sensações instintivas, deixando a sensação do vazio, da perda, da não completude.
A  adolescência se caracteriza pela busca de diferenciação dos pais e pelo engajamento com os que a ele se assemelham. Adolescência não é sinônimo de revolta, mas uma fase criativa do desenvolvimento humano, uma espécie de iniciação na autonomia que deve caracterizar o ser. E nunca foi tão partilhada como agora, nunca tão exposta.
Os adultos que já usufruíram da explosão digital não carregam a experiência que nossos jovens de hoje já levarão ao futuro de cada um. Serão essas famílias o paradigma proposto, onde a porta da frente se expandiu a ponto de se dissolver para uma comunidade integrada e interativa?
Um modelo interessante é dos jovens que se tornaram pais e mães na adolescência, porque continuam integrados na mesma rede dos seus pares de mesma idade mas que não passaram pela experiência de um filho. A verdade é que os filhos acabam por terem os avós como pais  substitutos, porém o estilo de vida dos pais impõe o modelo que a criança seguirá.
Outro fato real dessa atualidade virtual é o embotamento das consciências ante a violência, onde a morte por eliminação se torna banal em questões mínimas e nunca vitais, um jogo virtual pode determinar a morte de uma criança real, como a filha do casal Kim, morta por inanição, na Coréia, enquanto seus pais jogavam por mais de 12 horas um desafio de manter uma criança virtual viva.
Outro desafio é que o uso e abuso de drogas entre jovens está consumindo a parcela da população que víamos como reserva de futuro _ para nossa triste realidade, a idade média de início no crack é 13 anos e essa droga se verticalizou em todas as classes sociais. E o que se sabe é que o distanciamento da realidade, induzido pelo consumo excessivo de internet, facilita a dependência, o arrastamento para as drogas excitantes.
O paradigma ainda continua sendo as bases estruturadoras da família, o possível avanço desse paradigma, das famílias cujas portas da frente se expandiram, talvez esteja ensaiando seus passos mas isso talvez não será para minha geração experimentar.

terça-feira, 15 de junho de 2010

A mesa do restaurante não é mesa de meu consultório!


Rememorando cenas de meu cotidiano, voltei a Brasília, pouco mais de um ano atrás, mais precisamente de uma cena em um restaurante, onde já ansioso pela fome devoradora, esperava meu prato . Tentava me dessedentar às custas de Coca Zero, enquanto me permitia olhar o gelo em lento processo de liquefação.
            Poucos segundos e meu olhar curioso se deteve no casal que chegava com uma criança carregada no colo do pai, acompanhados por uma babá que trazia sacolas e a incumbência da escolha da mesa. A mãe se movimentava rapidamente, demonstrando irritação, ao mesmo tempo que observava o marido com o filho e a babá com as sacolas.
            O foco de meu olhar se deteve sobre a criança. Era uma fácies sindrômica, ou um rosto que aparentava uma alteração rara. O bebê apresentava micrognatia (queixo pequeno), qual Noel Rosa, mas também tinha o nariz em sela, os olhos afastados um do outro e uma persistente hipotonia, seu corpo não encontrava a contração muscular do tronco e da coluna para se sustentar. Dormia um sono pesado.             Mentalmente comecei a descrever postulações sobre a possível síndrome, num processo chamado de repertorização, onde as anomalias são descritas em conjunto para descartar a probabilide de uma doença genética. Discretamente observei as características da mãe, o tipo de rosto, a característica do nariz, o posicionamento dos olhos e das orelhas. Qual investigador, fazia mentalmente a repertorização daquela doença e imaginava as condutas a serem tomadas.
            Diante de uma mãe normal, imediatamente me detive no pai, que segurava a criança, embalando-a com extremo amor, acalentando seu sono e repetindo a cada instante "filhinho lindo do papai"!  
            Naquele me dei conta que mesa de restaurante não é a minha mesa de consultório, que as pessoas não são conhecidas pelos prontuários médicos, que os sentimentos não se detém em formas, contornos, características físicas.
            Tomado de emoção, até me esqueci do outro casal que estava em frente à minha mesa e que se comunicava um com o outro através do celular, sem que nenhuma palavra fosse dirigida ao outro diretamente, sempre com a intermediação de um aparelho. Também me esqueci do agitado homem que me assustou quando, de pé ao meu lado, falou de modo tão ríspido com seu pai que todo o restaurante protestou indignado, a voz alterada do homem foi maior que o barulho do restaurante.
Apenas uma cena que se repetia docemente, que me fez mentalmente dizer: "Filhinho lindo do papai, não sei seu nome, mas sei que é amado!"

A Difícil Tarefa de Comprar Tomates

Tomates, nem maduros demais e nem tão duros. No ponto para a confecção de um molho especial com gosto italiano. Essa a missão que assumi ao descer apressadamente ao supermercado após os outros ingredientes do afamado molho terem sido cuidadosamente selecionados no armário-dispensa de minha pequena cozinha. Uma macarronada com molho especial, aprendido há muitos anos, na casa de meu amigo Bertero, em São Paulo.
Sábados ao quase final da tarde nem sempre é um bom momento para supermercados. Todos resolvem solucionar seus problemas de casa e cozinha no momento que antecede o crepúsculo, como se o por do sol tivesse o poder mágico de reduzir os preços ou provocar insanidade nos gerentes dos supermercados a ponto de ofertarem gratuitamente os produtos das gôndolas.
E no supermercado cheio, com a pressa a marcar meus passos, eis que me deparo ante a pia de tomates do tipo salada, pronto para escolher os que melhor caíssem nos meus critérios de seleção. Mal começo palpar a fruta para sentir o seu ponto e eis que minha atenção é roubada por um tipo exibicionista, que entra cantando performaticamente supermercado adentro, como se nós, os apressados clientes fossemos seu público cativo.
A melodia desafinada vinha em um péssimo inglês e só esse atentado à língua anglo-saxã já seria motivo para que os seguranças o retirassem dali, sem contar que seus trajes inoportunos, um homem magro usando tamancos de salto altíssimo, lenço no pescoço e óculos de sol enormes compunham um tipo bizarro. Nada contra a bizarrice de um personagem, tudo contra a música que saía excessivamente alta e desafinada. O pior é que em sua performance, ele apontava o dedo em minha direção, me destacando em meio à pequena multidão.
Não sei se ouviram minhas preces ou a ordem do dono do estabelecimento, mas em pouco tempo, antes mesmo de completar I Will Survive quase pulando em meu pescoço, o esdrúxulo cantor deixou o recinto. Alívio para um atrasado comprador de pequena quantidade de tomates. Poderia retomar a devida concentração para a escolha do principal componente do molho carbonara.
Mais uma pequena pressão com os dedos e alguns tomates no saco e novamente a minha atenção é arremessada por uma dupla barulhenta que cega dos outros, me empurram de onde estou sem perceberem minha veemente reclamação.
Duas mulheres, uma bem mais velha que outra, discutiam sobre o que realmente faltava em casa. A que parecia ser a mãe, desqualificava sua filha a cada sugestão e cada negativa da mãe vinha acompanhada com agressões verbais sugestivas da limitada capacidade mental da filha.
A resposta da outra não tardava, sempre no mesmo tom alto de voz que a mãe empregava, e por ela fiquei sabendo que ninguém na casa aguentava mais a incontinência urinária da genitora, sem qualquer percepção do local onde se encontrava, para delírio dos presentes, todos ficamos sabendo que na casa delas havia calcinhas dependuradas por toda a sala e pelos quartos, que uma risada ou ranhetice, até mesmo pequeníssima tosse e um cheiro forte de urina roubava a cena e o perfume da mãe.
A senhora quase idosa não se fez de rogada, além de pedir respeito, me puxou pelo ombro e gritou a todos, como se estivesse falando comigo, que a filha também tinha seus problemas, o mais grave deles era a voz de seu estômago após cada refeição, enchendo de barulhos e cheiros a mesa e a sala.
Tentei rapidamente sair, estava além de minha hora, puxei meu ombro de volta, deixei qualquer análise das cenas para um momento futuro, busquei o caixa. Mas qual não foi minha surpresa ao deparar com meu vizinho com cabelos arrepiados para o alto, como se tivesse tomado choque elétrico, camisa social, bermuda de corrida e chinelos. Disfarçadamente cumprimentei-o e um grito assustador foi a resposta, seguida de proclamações religiosas.
Quando a moça do caixa me convidou para pagar meus tomates, depositei-os na caixa de devolução e resolvi comer um bife.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Que ideal carrega?

Madrugada de terça-feira, o vento frio se insinuava pela fresta tímida da janela no momento em que de súbito sou retirado do deleite dos sonhos por Olívio Correa, que retornara do plano dos espíritos não apenas para me alertar do frio, mas tinha um convite.
“Considere-me apenas como um oficial de justiça a quem cabe intimar em cumprimento de ordens superiores. Venha!” Não tive como pedir auxílio ao meu amigo Watson Alves Ferreira, minha referência em Anápolis das décadas de 50 e 60, não dominava, e ainda não tenho qualquer domínio, da vida como espírito e depois poderia assustar o amigo, não acostumado ao diálogo com espíritos de mortos, quanto mais de vivos. Na falta do endereço do João Maranhão, fui sozinho com seu Olívio.
A viagem foi breve, como se passássemos por um portal, repentinamente a escala do tempo sofreu um revés e logo estava em 23 de abril de 1950, era a data de fundação do Sanatório Espírita de Anápolis. Seu Olívio despediu-se de mim amorosamente e repentinamente me vi no ambiente que conheço e trabalho há quase vinte anos. Tempo algum se fez passar e meu companheiro Zilmar Pereira acontece ao meu lado, vindo guiado por um senhor distinto, sério, com uma prancheta na mão.
Ao nosso lado a comemoração do sexagenário hospital era calma, sem alardes, total agradecimento pelas seis décadas de existência. Diante de mim e de meu amigo uma tela enorme projetou um filme, a história de um grupo de idealistas que trouxeram um ideal em forma de missão. Amparar à loucura e oferecer tratamento a base de oração, passes magnéticos, arsenais que o Espiritismo oferece, era apenas a parte inicial de um projeto que se desdobrou, amplificado pela chegada da era do Espírito que se instalava em novo desdobramento.
Enquanto o filme desenrolava, outras pessoas que compartilham conosco as atividades de trabalhadores da casa simplesmente apareciam ao nosso lado, aumentando a emoção e o conforto. Ao mesmo tempo, os que partilhavam da outra solenidade chegavam a pequenos grupos até que o local onde me encontrava ficasse repleto.
Sempre com a prancheta na mão, o senhor de estatura moral elevada esperou o término da última cena e tomou a palavra. “Ao longo de duas décadas temos trabalhado em nosso ideal de atendimento espírita-cristão, disse ele com voz firme, e sabemos hoje que, a par do desenvolvimento de moderna farmacoterapia aplicada aos transtornos da mente, é imprescindível a aplicação da insuperável terapia do amor, do cuidado. Nosso hospital ideal não tem muros que isolam, mas portas que se abrem para a comunidade; não tem salas que contém, mas oficinas que integram o atormentado mental e o dependente químico, na sociedade como cidadãos; nossa equipe se estrutura pela meritocracia, onde os que mais se devotam têm o reconhecimento de todos e onde nenhuma opinião é desprezada.”
Enquanto o antigo amigo falava, a emoção me envolvia por ver que suas palavras tomavam a forma de cenas vivas, projetadas na grande tela. O preletor fez referências seguidas a Inácio Ferreira e Maria Modesto Cravo, pioneiros do Sanatório Espírita de Uberaba e encerrou sua palestra com a presença de pessoas humildes, que participaram da fundação do hoje Hospital Espírita de Psiquiatria, entre elas pude distinguir dona Nair e seu Lázaro, o sorridente eletricista, meu querido amigo de palestras espíritas.
Sabia que meu tempo estava se encerrando, Zilmar conversava com seu Olívio Correa e Moacir Romeu Costa. Procurei o seu Hastinphilo Leão para saber da baiana, a primeira paciente, transtornada mental que foi a primeira a ser atendida. Havia chegado a Anápolis vinda não se sabe de onde, sem familiares, vagava pelas ruas, assustava as pessoas com sua loucura. O amigo sorriu e apontou para uma mulher de sorriso aberto, olhar terno e de modo reverente e saudoso me disse: “Ela foi aquela que serviu como voluntária para que nosso ideal fosse lembrado. E você, que ideal carrega, meu filho?” Não tive como responder, amanhecia e o despertador me chamou de volta, deixando a tarefa de refletir sobre o ideal de uma instituição que completa sessenta anos.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A Doença como Linguagem

Ela chegou com um enorme envelope da Clínica Radiológica nas mãos, carregando como se fosse um longo e minucioso inquérito; apesar do peso da embalagem, tinha braços que aparentavam fraqueza, os músculos destacavam-se como se esforço enorme estivesse consumindo suas energias.
“O que eu tenho, doutor? Trago aqui exames, meu corpo foi revirado de dentro para fora e os médicos ainda não me disseram o que tenho. Confesso que o último profissional que procuro é o senhor, se não me der solução, nem sei o que vou fazer, mas médico não procuro!”
Médicos são remédios dos mais caros que existem. Solicitam sofisticados exames, a custos crescentes para o sistema de saúde, indicam cirurgias e prescrevem remédios e soluções que também geram custos. Nos casos onde a doença é trazida pelo paciente, a eficácia do remédio chamado médico beira a totalidade, nos casos onde a doença é o paciente, os efeitos colaterais são evidentes e por vezes danosos.
Não houve modificação da sintomatologia das doenças orgânicas conhecidas ao logo dos anos. Com a exceção de raras síndromes inflamatórias, como as doenças do colágeno, distúrbios hormonais raros, como feocromocitoma, a eficácia dos protocolos diagnósticos que o médico dispõe permite com segurança a identificação dos males do corpo e a elaboração de tratamentos.
Mesmo com toda a eficácia dos recursos e avanços da Medicina, é crescente a insatisfação dos pacientes com o remédio chamado médico. Pesquisa do Instituto Gallup, nos Estados Unidos em 2002, mostrou que até 60% dos pacientes não se sentem confortados pelos seus médicos e gostariam que o tratamento alcançasse limites além da doença que trazem.
Quando a doença é a linguagem que o paciente traz para falar de si, ou de algo que o incomoda, o médico sofre as limitações de um remédio que não é panacéia, a cura de todos os males. Isso porque o mal existente ou aparente assume características e comportamentos que vão além dos limites que a limitação do conhecimento médico pode alcançar.
As doenças seguem leis irracionais, incompreensíveis para os médicos. Por não ser totalmente conhecido o mecanismo das leis que regem as doenças, os tratamentos são focados nos pontos principais e conhecidos de cada moléstia. Isso permite que o tratamento seja baseado no conhecimento alcançado pela Ciência e seja aplicado a todos os portadores daquela doença
A doença torna-se linguagem quando é a forma que o paciente encontra para falar de si, por não conseguir ouvir o que sua mente quer dizer. Doença-fantasma não é uma entidade médica, mas uma realidade presente em número considerável. Não diz respeito a algo imaginário, porque o doente sofre, mas é uma forma dolorosa da mente se manifestar e interferir no organismo, chamando atenção para si. É responsável, também, por numerosos sintomas desconhecidos de doenças conhecidas.
Estamos então no campo da chamada psico-somática, que diz mais que o jargão reducionista que reza “tudo é psicológico”. Aqui é a interação danosa da mente que usa o corpo para falar à consciência que algo vai errado.
Diante de tantos exames, de imagem e de laboratório, restou a pergunta, “se todos os exames estão normais, se seu corpo está perfeito, o que você realmente acha que te faz sofrer?”
A tomada de consciência de que fatores inconscientes incomodam leva à mudança de postura, ao alívio, ao caminho para a saúde. A inscrição gravada em ouro no pórtico do templo de Delphos ecoa viva em nossas almas: Homem, conhece-te a ti mesmo.

sábado, 10 de abril de 2010

Chá da China

“Chá, compre-me apenas chá, de qualquer marca, mas de sabor exótico, diferente dos que encontramos por aqui”. Era uma encomenda simples, a princípio de valor irrisório para alguém que em menos de um dia viajaria para o exterior longínquo e deixaria para trás o amigo preterido. Apenas uma vaga surgiu para a empresa, mas a vaga tinha nome, escolhido diretamente pelos patrocinadores.
Estevão mostrava humildade ao reagir apenas com a cara fechada quando soube da definição, um mês antes da viagem. “Essa viagem era minha, mas já que não me quiseram o que posso fazer?” Foi o que me disse no dia em que o email chegou. Fez questão de me ligar para cumprimentar e dar recomendações sobre Pequim. “Tem dois anos que estudo a cidade, conheço tudo o que escreveram sobre a capital da China”.
Não mais tocou no assunto, nada falou nas semanas seguintes, na verdade me evitou a todo custo e foi burocrático quando me encontrou, logo conseguindo uma chamada telefônica inadiável que tinha que ser atendida a qualquer custo.
Comprei um sobretudo pesado, disse a ele uma semana antes do embarque, em raro momento de maior atenção. “Overcoat, esse é o nome. Evite os escuros mas não use cores vivas, prefira cinza claro. Comprou um preto? Então não necessitava de minha ajuda. Boa viagem.”
Overcoat. Soube que Estevão havia comprado um sobretudo Armani em São Paulo. Pagou a bagatela de três mil reais, mas justificava dizendo que valeria cada tostão, o frio de Pequim pagaria cada centavo. E o meu foi comprado em um brechó de porta única e mal iluminado. A vendedora era quase cega de tão caolha, mas era boa vendedora porque me vendeu por um décimo do preço um sobretudo encardido e sem botões; uma semana de intensa procura para achá-los no tamanho e cor ideais.
Tenho luvas antigas, de lã, disse também a ele naquele dia. O colega olhou-me com desdém, não usava luvas, exceto se fossem de couro, mas eu deveria saber o que era melhor para mim. Deveria mesmo, as luvas de tão antigas rasgaram quando fui experimentar novamente, abrindo buracos cujos reparos me custariam um novo par.
A programação para a viagem era de uma semana corrida, mas foram gastos dois dias para chegar e outros dois dias levariam para retornar. A escala era em Frankfurt, tanto na ida quanto na volta e na cidade alemã descansaria dez horas em cada etapa da viagem. O resultado é que teria três dias na cidade chinesa, sendo que dois dias seriam ocupados pelo evento. O total efetivo que me sobraria, um dia. O primeiro dia.
A encomenda de Estevão seria buscada nas poucas horas que teria entre a saída do hotel e o aeroporto. Já localizara o supermercado, comprar chás exóticos seria um passeio, tudo o que viesse de tão longe por si só seria exótico. Naquela manhã abri email de Estevão reforçando o pedido, queria chás exóticos e reforçava que não era de jasmim, preto, bergamota, hibisco. Terminava a correspondência eletrônica reforçando que contava com o amigo que aliviaria a frustração de quem se preparou para viajar e fora preterido.
Uma das malícias que a vida me ensinou foi perceber a chantagem e não cair em armadilhas. Estevão estava se vingando sua raiva por não ter sido o escolhido, em minha boa disposição e vontade. Eu não encontraria um chá exótico em supermercado algum e realmente o que vi foi um desfile de chás conhecidos nas prateleiras de nossos supermercados e nas estantes de lojas da Europa, muito freqüentadas pelo amigo. Um funcionário do mercado se esforçou para me entender e o máximo que me vendeu foi um chá que misturava mel, jasmim e canela, era o mais exótico para ele.
Com o chá em mãos, coloquei-o na bagagem de mão e segui o conselho de um taxista português. “Nada é mais exótico em China que o tabaco dos cigarros que vendem aqui. Antigamente eram distribuídos, na época do comunismo rigoroso, agora são vendidos a preço de banana”. Carteira de cigarros comprada, faltou apenas uma caixa, onde a mistura do tabaco ao chá daria ar de imponência.
No ônibus de volta, um colega do Rio Grande do Sul deu risadas e provocou espanto ao mostrar uma caixa de camisinhas decorada com mandalas chinesas. Era uma caixa de plástico, mas com aparência de madeira e a pintura parecia entalhes. “Bá! Se acha em qualquer farmácia aqui, até mesmo no aeroporto!”.
Peço apenas que não me convidem para junto com Estevão tomar um chá exótico da China, que vem em uma caixa belíssima, tem o aroma forte de misturas incomuns e gosto um tanto amargo de tabaco ordinário.

sábado, 3 de abril de 2010

Livrai-nos do mal


Imagino que Isabella não clamou por justiça como motivo para seu descanso, mas apenas imagino. Os mortos falam quando querem, de várias formas, não apenas através de médiuns, mas também nos sonhos, intuições, lembranças. Isabella teria falado de algum modo com alguém clamando justiça?
Os jornais e revistas assinalaram que a menina gostava da companhia do pai, sentia sua falta. Não se sabe se Alexandre a espancava, se tinha arroubos de impulsividade, beirando a insanidade, comportamento que a psiquiatria batizou de acting para descrever a ação impulsiva, impensada, danosa, que algumas pessoas que não conheceram limites apresentam como cartão de identidade. E onde chegam provocam o temor de um barril de pólvora que explodirá em minutos, e sempre explode. Alexandre a espancava, seus actings se voltavam contra a filha? Não imagino, nem ao menos imagino.
O que tenho certeza é que Isabella não é mártir, como quer boa parte da mídia, como querem os sensacionalistas de todas as horas. Foi mais uma menina ingênua, inocente, que sentiu a voracidade de uma madrasta que se revelou cruel, de um pai fraco e covarde. A morte de Isabella e a condenação de seus assassinos não retira o mal de perto de nós.
A oração dominical se encerra com a sentença em que pedimos que não sejamos entregues solitariamente à tentação e mais, que sejamos livres do mal. No encadeamento da súplica, o libertar-se da tentação e do mal não vem do elemento exterior, porque é conseqüência de um ato interno de perdoar, “perdoai as nossas ofensas, assim como perdoamos a quem nos tem ofendido”. O pedir perdão na medida da capacidade de perdoar antecede a revelação de Jesus sobre a origem do mal dentro do homem, “e não nos deixei cair em tentação, mas livrai-nos do mal”.
Figuras como Nardoni e Jatobá não se fazem originais. Contam-se aos montes, como a mãe que permitiu o abuso e morte do filho de pouco mais de um ano de idade pelo padrasto perverso, talvez repetindo a perversão da outra mãe, que viu o filho morrer de fome e se comprazer com isso. As duas alegaram ignorância, buscaram a chancela da miséria, a justificativa da ausência de oportunidades, e poderiam arrolar vários outros motivos, mas apenas como enfeite da crueldade que escondiam, da incapacidade de proteger os filhos e, pior, usariam desses e todos os motivos para adornarem o banquete de devoradoras de crias. O que mais me assusta é que a distância que vivo dessas mães é de apenas uma viagem a Goiânia ou pouco mais longe, mas dentro de Goiás.
A sociedade não teve tempo para descansar em paz. Jamais deixa de criar enredos de prisão e tormenta. A virtualidade que rege as relações à distância é a realidade de uma linguagem binária dos computadores. Imagens belíssimas são criadas para jamais serem concretizadas ou alcançadas, porque apenas são o código de informação de um computador. E mesmo assim a virtualidade excita, vicia, aprisiona.
O sexismo que invade as relações virtuais é outra forte algema, que entorpece os sentidos e exige compensações enormes, comportamentos aberrantes, bizarros, para aplacar desejos que surgiram de sensações, de afeto sem origem em sentimentos.
A banalização da violência, amplificada pelo entorpecimento da razão, mata-se como em um jogo. No jogo em que os dados rolados decidem vidas humanas, um mendigo é apenas algo encontrado na rua, seus trapos logo viram chamas e nem os gritos de dor do suplício pelo fogo desperta os perversos que se comprazem nas orgias de droga e sangue.
Páscoa é libertação. Senhor, livrai-nos do mal, amém!

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Cumplicidade Mental

Um carro emprestado a um criminoso, facilitando a fuga e eis que um novo rosto surge importante na história sangrenta da morte de Glauco e Raoni. Motivos para ter levado o assassino e depois cedido o carro irão surgir, um desfile de fatos e cenas comporão o leitmotiv da ópera de sangue e loucura. Um só motivo estará guardado com o agora cúmplice do psicótico que desferiu os tiros, que cindiu o véu da tolerância com a erva do Santo Daime.
Fernanda Viana tinha 16 anos quando foi mantida refém em um hotel em Feira de Santana na Bahia. O bandido que a deteve era pouco mais velho que ela, ganhou notoriedade no Brasil, virou filme e livro, mas não escapou da morte dentro da prisão. Leonardo Pareja despertou não apenas a paixão de Fernanda, parente próxima do então senador Antônio Carlos Magalhães, mas também a devoção de muitas mulheres. A causa real dessas paixões não é diferente do motivo de Felipe Iasi em ceder seu carro para a fuga de Cadu.
Como não é diferente do escândalo homossexual envolvendo um padre de Arapiraca, Alagoas, que não titubeou em expor a Igreja Católica aos efeitos de sua sanha proibida pelo celibato e somando-se às outras centenas de ocorrências mundo afora, constrangendo o Catolicismo a se defender do achaque de materialistas cujo interesse maior é a demolição do edifício cristão do seio da Humanidade.
Nietzsche teve a aguçada percepção que o povo germânico de sua época nutria em si os germes do mal que eclodiriam nas duas guerras mundiais que envolveram a Alemanha. Sua filosofia trouxe para o plano das interações da realidade a Filosofia, obrigou que se dobrasse ao conhecimento do homem e de suas volições.
Rollo May enxergou que o homem da década de 50 se comportava qual o da era vitoriana, fechado em torno de uma casca, enxergava o mundo tentando dele se isolar. O resultado desse comportamento é a falta de parâmetro para perceber a si mesmo. Somos a medida do outro.
Crianças nutrem figuras imaginárias em seu universo infantil. Heróis e bandidos interagem em contínua luta nos papéis que ela assume. O que rege essa interação é a percepção da criança que se julga centro e criadora do mundo e de tudo o que a cerca, os papéis dos outros são definidos por sua mente a cada movimento. Levi-Brhul chamou essa relação de participação mística, ao estudar civilizações indígenas isoladas.
Adultos fechados em si mesmos tendem a se julgar centro do mundo, seus pensamentos não alcançam o outro e são auto-referentes. O que não é excluído do seu mundo é usado como participante de um papel. O bandido acobertado, ou levado a cabo de grande amor, a aventura proibida que coloca em risco instituições grandiosas e fundamentais.
Era apenas um caldo quente e escaldante que fazia-nos suar na noite do domingo que passou. Mas a televisão tirou minha atenção do caldo e da amada, mostrou a entrevista de um menor de vida marginal, assaltante e assassino. A vida é um jogo, ensinou ele, se ganhamos, dividimos o prêmio, se a gente morre é porque perdeu o jogo.
O rapaz que disse isso não completou os dezessete anos, não sabe nada da vida, sabe apenas que está em um jogo de gozo ou morte. Não tem filosofia ou propósito além disso. Não sabe o nome do outro, do seu colega de libações ou morte, não sabe o nome de suas vítimas, não se preocupa além de jogar. É a vida.
Mas a sociedade se pune a si mesmo ao manter desejos ocultos e participações criminosas na cumplicidade mental de pessoas que cumprem um papel, ou deveriam cumprir, que sabem refletir ainda que primariamente e percebem que a vida não é um jogo de prazer ou morte. Expressam o desejo da ordem, mas associam-se às variações do mal que a todos castiga. Castigar o outro e evitar sistematicamente que ele possa existir pela certeza do sofrimento imposto, esse o prazer em se perpetuar o mal dentro de si.

Meu encontro com Freud


Um cachimbo Dunhill a preço de ocasião foi por demais sedutor sobre minha predileção pelo mais charmoso ítem da tabacaria. Mais que umas centenas de euros, o prazer de uma peça que raramente seria utilizada, a única vez naquela manhã, se muito.
A tabacaria já antiga, situava-se em pequena rua, próxima à Praça dos Heróis, em Veneza e a esperança de uma manhã quente de primavera logo se frustrara pela bruma espessa que encobria o monumento de general montado a cavalo a saudar os heróis da nação, trazendo para a estação das flores momentos de inverno. Um banco de praça, no frio, momento de saborear o tabaco inglês, importado da Virgínia e misturado com especiarias que o tornavam atrativo e caro.
Não se traga a fumaça do cachimbo, ela é saboreada na boca e logo eliminada. Até que a fumaça preencha de delícias o fumador, todo um ritual deve ser seguido, desde a forma de abrir a lata do tabaco à pressão certa que deve ser imposta ao fumo na fornilha do cachimbo _ esse o grande segredo que aprendi a duras penas, para cada mistura, uma pressão ligeiramente diferente. Outro ponto crucial é o tipo de isqueiro, ou fósforos, que devem ser os apropriados para cachimbos. Sobre o cachimbo e seus tipos, é uma história maior, mais detalhada, com indicações e instruções riquíssimas. Muitas árvores centenárias cederam todo o seu tronco para a confecção de uma única peça, para a ira dos novos ecologistas e para o prazer dos que tiveram a oportunidade de terem para si a fornilha de uma urze branca centenária do mediterrâneo.
O banco gelado como o vento que não dissipava a bruma, me fez tomar uma postura encolhida e mesmo assim acendi o cachimbo a longas baforadas para que o tabaco enfim se transformasse em uma usina da prazerosa fumaça. Viena, cidade que no final do passado século foi o berço das revoluções da filosofia e da psicologia que definiriam os rumos de nosso século. Viena de Sigmund Freud, da praça dos Heróis, de um brasileiro com seu cachimbo sentado no banco da praça, sendo envolvido pela nicotina que agudamente afetava a percepção, a ponto de já não enxergar além da vista meio palmo, tal bruma que envolvia não apenas a praça e a cidade, mas meus olhos.
Alguém me pediu licença e sentou-se ao meu lado, saboreando um charuto tipo longo. Os olhos clarearam repentinamente ao divisar a figura de Sigmund Freud, conversando comigo em fluente língua da mente, que creio dominar bem porque entendia e respondia.
Trazia o célebre médico vienense, um grosso prontuário, me disse ser o caso de Anna G. e o abriu exatamente nas conclusões sobre a histeria da mulher que a cegara temporariamente, até ser curada pela psicanálise. Discordou de mim de efeito semelhante ao da hipnose, mostrou-me a contundência da resposta pela remissão total dos sintomas, no caso a cegueira.
De alguma forma o médico vienense preocupou-se com meu bem estar, talvez achou que eu sentia frio, porque estendeu sobre meus joelhos a grossa capa de lã que carregava, ao mesmo tempo que me perguntou qual minha opinião sobre as suas idéias. Uma baforada maior, quase sufocado porque o tabaco era demasiado forte. Complexo de Édipo, como é difícil compreender e aceitar, como mudou a história essa percepção que a civilização ocidental tem nos traumas do nascimento e da infância a causa de boa parte de seus sofrimentos.
Uma nova baforada e percebi que já não estava sob tão intenso efeito da nicotina. Pigarreei para deixar a garganta livre e expressar minha opinião mas repentinamente me vi solitário no banco que ocupava, a bruma se dissipara e o sol saíra, trazendo consigo ruídos e pessoas, levando embora Freud. Do amigo, ficou o delírio e a capa de lã que ainda guardo em meu armário.

Um Esquizofrênico invadiu minha mente!

Um sonho e estou diante de um louco, conhecido por suas várias internações, que me conta sua vida, cada detalhe de seu sofrimento, despertando sentimentos que transformam sua face, transfigurando o olhar alucinado em marejados olhos de dor e esperança de melhora. No sonho, os recursos são os da Magia e uma tela projeta existências por ele vividas, posições de mando e comando, grandioso e imponente homem, eivado do orgulho e da ignorância, entrando em bancarrota ao mirar-se apenas em si, esquecendo do outro. As imagens continuam vivas, ocupando um sonho dentro do sonho, provocando mais lágrimas e dor em J., e agora mostram a vida de um homem no monoideísmo, o estreitar de horizontes, a redução do eu por uma única e persistente idéia, o afogar dos ideais no mar sufocante do pensamento doentio.

A projeção na tela do sonho chega ao fim antes que do sonho tenha saído, e encontro J. um tanto aliviado, por conhecer sua história, ao menos assim interpreto, pois é meu produto onírico que vivencio e partilho agora com vocês. Mas como todo bom e delicioso sonho, J. de súbito se movimenta, em tresloucada gargalhada, assumindo a postura corporal e muscular adquirida nos mais de trinta anos de Esquizofrenia, e sai em disparada, gritando as mesmas ameaças que há quase quinze anos dele escuto.

Desperto e em pouco tempo estou diante de um paciente, com diagnóstico de transtorno mental, o mesmo personagem de meu sonho. Olho de modo diferente para ele, olhar terno, mas também curioso, terá sido realmente sonho, ou foi uma vivência transcendente e transpessoal? Teria ele lembrança do que vivemos, ou foi tudo produto de minha mente?

Na América, como em um bom número de países do Hemisfério Norte, a cultura popular de alguma forma é sistematizada em experimentos científicos, que visam comprovar ou negar o que é de domínio das pessoas e transmitido de forma não linear, não verticalizado, através das gerações. Um grupo de pesquisadores americanos reuniu-se com o propósito de estudar o papel dos sonhos em determinar a história de vida de uma pessoa e indicarem a solução para os problemas que elas estejam vivendo. A proposta do experimento foi reunir um grupo de pessoas comuns que tinham o propósito de sonhar buscando auxílio. e a eles apresentar a pessoa, que era o objeto de estudo. A esses sonhadores nada foi informado, a eles foi feita a proposta de sonharem com a pessoa, usando para isso o desejo desses sonhadores de socorrer o problema que não conheciam. Após 4 semanas, a pessoa-alvo do estudo era colocada diante do grupo dos que se propuseram a sonhar e cada um relatava o que havia anotado dos sonhos que tiveram com a pessoa. Impressionante o disparate entre o relato individual e sua transformação quando colocado como relatório do grupo. Não apenas a vida da pessoa era descrita, mas o problema relatado e a solução apontada.

Volto novamente à figura de J., que se posicionava à minha frente naquele momento, olhando de forma diferente, aqui me questionava se não era apenas forte impressão de minha parte. Um sorriso em seu rosto substituiu minha habitual apreensão por forte simpatia, esse laço mágico que nos liga ao outro em sensação de plena confiança. Seus passos quase apressados em minha direção iam ganhando força junto com um sorriso que se esboçava e se transformava. Quase grudado em mim, repentinamente, solta uma gargalhada de louco, me empurra e diz, acorda doutor!
 
Yoomp