terça-feira, 27 de abril de 2010

Que ideal carrega?

Madrugada de terça-feira, o vento frio se insinuava pela fresta tímida da janela no momento em que de súbito sou retirado do deleite dos sonhos por Olívio Correa, que retornara do plano dos espíritos não apenas para me alertar do frio, mas tinha um convite.
“Considere-me apenas como um oficial de justiça a quem cabe intimar em cumprimento de ordens superiores. Venha!” Não tive como pedir auxílio ao meu amigo Watson Alves Ferreira, minha referência em Anápolis das décadas de 50 e 60, não dominava, e ainda não tenho qualquer domínio, da vida como espírito e depois poderia assustar o amigo, não acostumado ao diálogo com espíritos de mortos, quanto mais de vivos. Na falta do endereço do João Maranhão, fui sozinho com seu Olívio.
A viagem foi breve, como se passássemos por um portal, repentinamente a escala do tempo sofreu um revés e logo estava em 23 de abril de 1950, era a data de fundação do Sanatório Espírita de Anápolis. Seu Olívio despediu-se de mim amorosamente e repentinamente me vi no ambiente que conheço e trabalho há quase vinte anos. Tempo algum se fez passar e meu companheiro Zilmar Pereira acontece ao meu lado, vindo guiado por um senhor distinto, sério, com uma prancheta na mão.
Ao nosso lado a comemoração do sexagenário hospital era calma, sem alardes, total agradecimento pelas seis décadas de existência. Diante de mim e de meu amigo uma tela enorme projetou um filme, a história de um grupo de idealistas que trouxeram um ideal em forma de missão. Amparar à loucura e oferecer tratamento a base de oração, passes magnéticos, arsenais que o Espiritismo oferece, era apenas a parte inicial de um projeto que se desdobrou, amplificado pela chegada da era do Espírito que se instalava em novo desdobramento.
Enquanto o filme desenrolava, outras pessoas que compartilham conosco as atividades de trabalhadores da casa simplesmente apareciam ao nosso lado, aumentando a emoção e o conforto. Ao mesmo tempo, os que partilhavam da outra solenidade chegavam a pequenos grupos até que o local onde me encontrava ficasse repleto.
Sempre com a prancheta na mão, o senhor de estatura moral elevada esperou o término da última cena e tomou a palavra. “Ao longo de duas décadas temos trabalhado em nosso ideal de atendimento espírita-cristão, disse ele com voz firme, e sabemos hoje que, a par do desenvolvimento de moderna farmacoterapia aplicada aos transtornos da mente, é imprescindível a aplicação da insuperável terapia do amor, do cuidado. Nosso hospital ideal não tem muros que isolam, mas portas que se abrem para a comunidade; não tem salas que contém, mas oficinas que integram o atormentado mental e o dependente químico, na sociedade como cidadãos; nossa equipe se estrutura pela meritocracia, onde os que mais se devotam têm o reconhecimento de todos e onde nenhuma opinião é desprezada.”
Enquanto o antigo amigo falava, a emoção me envolvia por ver que suas palavras tomavam a forma de cenas vivas, projetadas na grande tela. O preletor fez referências seguidas a Inácio Ferreira e Maria Modesto Cravo, pioneiros do Sanatório Espírita de Uberaba e encerrou sua palestra com a presença de pessoas humildes, que participaram da fundação do hoje Hospital Espírita de Psiquiatria, entre elas pude distinguir dona Nair e seu Lázaro, o sorridente eletricista, meu querido amigo de palestras espíritas.
Sabia que meu tempo estava se encerrando, Zilmar conversava com seu Olívio Correa e Moacir Romeu Costa. Procurei o seu Hastinphilo Leão para saber da baiana, a primeira paciente, transtornada mental que foi a primeira a ser atendida. Havia chegado a Anápolis vinda não se sabe de onde, sem familiares, vagava pelas ruas, assustava as pessoas com sua loucura. O amigo sorriu e apontou para uma mulher de sorriso aberto, olhar terno e de modo reverente e saudoso me disse: “Ela foi aquela que serviu como voluntária para que nosso ideal fosse lembrado. E você, que ideal carrega, meu filho?” Não tive como responder, amanhecia e o despertador me chamou de volta, deixando a tarefa de refletir sobre o ideal de uma instituição que completa sessenta anos.

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