quinta-feira, 1 de abril de 2010

Um Esquizofrênico invadiu minha mente!

Um sonho e estou diante de um louco, conhecido por suas várias internações, que me conta sua vida, cada detalhe de seu sofrimento, despertando sentimentos que transformam sua face, transfigurando o olhar alucinado em marejados olhos de dor e esperança de melhora. No sonho, os recursos são os da Magia e uma tela projeta existências por ele vividas, posições de mando e comando, grandioso e imponente homem, eivado do orgulho e da ignorância, entrando em bancarrota ao mirar-se apenas em si, esquecendo do outro. As imagens continuam vivas, ocupando um sonho dentro do sonho, provocando mais lágrimas e dor em J., e agora mostram a vida de um homem no monoideísmo, o estreitar de horizontes, a redução do eu por uma única e persistente idéia, o afogar dos ideais no mar sufocante do pensamento doentio.

A projeção na tela do sonho chega ao fim antes que do sonho tenha saído, e encontro J. um tanto aliviado, por conhecer sua história, ao menos assim interpreto, pois é meu produto onírico que vivencio e partilho agora com vocês. Mas como todo bom e delicioso sonho, J. de súbito se movimenta, em tresloucada gargalhada, assumindo a postura corporal e muscular adquirida nos mais de trinta anos de Esquizofrenia, e sai em disparada, gritando as mesmas ameaças que há quase quinze anos dele escuto.

Desperto e em pouco tempo estou diante de um paciente, com diagnóstico de transtorno mental, o mesmo personagem de meu sonho. Olho de modo diferente para ele, olhar terno, mas também curioso, terá sido realmente sonho, ou foi uma vivência transcendente e transpessoal? Teria ele lembrança do que vivemos, ou foi tudo produto de minha mente?

Na América, como em um bom número de países do Hemisfério Norte, a cultura popular de alguma forma é sistematizada em experimentos científicos, que visam comprovar ou negar o que é de domínio das pessoas e transmitido de forma não linear, não verticalizado, através das gerações. Um grupo de pesquisadores americanos reuniu-se com o propósito de estudar o papel dos sonhos em determinar a história de vida de uma pessoa e indicarem a solução para os problemas que elas estejam vivendo. A proposta do experimento foi reunir um grupo de pessoas comuns que tinham o propósito de sonhar buscando auxílio. e a eles apresentar a pessoa, que era o objeto de estudo. A esses sonhadores nada foi informado, a eles foi feita a proposta de sonharem com a pessoa, usando para isso o desejo desses sonhadores de socorrer o problema que não conheciam. Após 4 semanas, a pessoa-alvo do estudo era colocada diante do grupo dos que se propuseram a sonhar e cada um relatava o que havia anotado dos sonhos que tiveram com a pessoa. Impressionante o disparate entre o relato individual e sua transformação quando colocado como relatório do grupo. Não apenas a vida da pessoa era descrita, mas o problema relatado e a solução apontada.

Volto novamente à figura de J., que se posicionava à minha frente naquele momento, olhando de forma diferente, aqui me questionava se não era apenas forte impressão de minha parte. Um sorriso em seu rosto substituiu minha habitual apreensão por forte simpatia, esse laço mágico que nos liga ao outro em sensação de plena confiança. Seus passos quase apressados em minha direção iam ganhando força junto com um sorriso que se esboçava e se transformava. Quase grudado em mim, repentinamente, solta uma gargalhada de louco, me empurra e diz, acorda doutor!

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