sábado, 16 de julho de 2011

Felicidade e Saúde

Felicidade faz bem para a saúde. O que era uma assertiva da sabedoria popular virou prescrição médica desde que uma série de artigos, que datam desde a década de 80, demonstraram efeitos benéficos de estados relacionados ao que chamamos felicidade, como o sorrir alegremente, o viver sem preocupação com o dia de amanhã, planejar o futuro com otimismo, ter uma rede saudável de amigos reais ( e não virtuais, como o que ocorre com as redes sociais da internet).
            Na década de 80 uma série de pesquisas iniciadas na UCLA, Universidade da Califórnia em San Francisco, demonstrou a íntima relação entre estados de humor e sistema imunológico, mediado pelos neuropeptídios, que se encontram por todas as regiões cerebrais. Relações entre queda imunológica e depressão, mediados por transmissores celulares, chamados citoquinas e interleucinas, e hormônios, como o CRF (Fator Liberador de Corticotropina) foram demonstrados e uma nova disciplina surgiu, chamada de Psiconeuroimunologia.
            Entre os estudos da UCLA, um testou o efeito de sorrir-se alegremente. No momento da gargalhada realmente feliz, os níveis dos chamados hormônios do estresse, e assim são chamados porque são mediadores das reações inflamatórias do estresse, caem abruptamente, o que provou que sorrir alegremente traz benefícios sobre a saúde.
            Alcançar a felicidade é um roteiro mais que filosófico ou metafísico. É uma construção árdua, contínua, cujo êxito se obtém após muitas frustrações. Em verdade, podemos dizer que sem frustrações não há felicidade.
            Sigmund Freud foi o grande estudioso da alma humana. Em um texto extremamente bem elaborado, “Muito Além do Princípio do Prazer”, o neurofisiologista vienense relata que (por instinto) somos levados, desde a infância, à busca da satisfação de prazeres, que vão desde a relação com os esfíncteres à satisfação dos impulsos sexuais. E essa pulsão não tem fim, exceto se contrariada por frustrações, e são as frustrações que permitem desde simples ordenações sociais às mais complexas, desde a vida em um pequeno grupo ao relacionamento pacífico entre povos e culturas distintas.
            A proposta de Freud foi reavivada com os estudos da moderna neuroimagem funcional, que é o estudo das imagens cerebrais, através de aparelhos sofisticados, capturando um momento de estabilidade, como também após um estímulo específico.
            Um estudo de neuroimagem funcional muito ilustrativo foi apresentado por João Ascenso nas V Jornadas Portuguesas de Medicina e Espiritualidade, em Maio de 2010 e também em Junho de 2011, no Congresso Médico Espírita do Brasil. No estudo apresentado por Ascenso, os sujeitos pesquisados receberam dois tipos de estímulos, um de recompensa que foi imaginarem que ganharam uma fortuna, o outro, de frustração, foi de imaginarem que a fortuna não ficaria com eles. Nesse segundo estímulo, os sujeitos tiveram duas opções, ou doariam tudo o que tinham para uma entidade filantrópica ou deixariam que tudo se perdesse. Analisando as imagens neurofuncionais por ressonância magnética, o autor do estudo apresentado por Ascenso, M. Benchimol, percebeu que quando as pessoas eram estimuladas pela recompensa, ativavam áreas cerebrais correspondentes a estruturas básicas e instintivas, o mesmo se dando quando ocorria a frustração com a opção de perderem tudo e não doarem. Todavia, os sujeitos do estudo que optaram por doar a recompensa, ativavam áreas cerebrais correspondentes aos lobos pré-frontais.
            A região pré-frontal do neocortex é a área das realizações superiores, segundo informação do espírito André Luiz na obra psicografada por Chico Xavier, No Mundo Maior, na década de 1950. Os estudos modernos comprovam que essa região cerebral é estimulada pelas pessoas que se sentem felizes.
            Outro dado interessante é que esses achados são compatíveis com a proposta de Mario Beauregard em seu livro O Cérebro Espiritual. O pesquisador canadense, da Universidade de Montreal, obteve o mesmo tipo de imagens, mas após modificação do padrão cerebral por terapia, efeito placebo ou estado de atenção sobre si mesmo, ou mindful state.
            Para obter esse tipo de padrão de neuroimagem, correspondente à ativação de regiões cerebrais que equivalem a estados de felicidade, uma frustração anterior teve que ocorrer, ou seja, a intenção deliberada de modificar-se o estado mental anterior, ou ir muito além do princípio do prazer , como disse Freud.

sábado, 2 de julho de 2011

Depressão, uma abordagem médico-espírita


Entender Depressão enquanto doença não é uma tarefa fácil. Isso porque o termo Depressão descreve uma manifestação comum a uma série de alterações bioquímicas cerebrais diferentes entre si, que dão as tonalidades, ou a falta delas, à doença.
            Existem tipos principais de  manifestações da Depressão, a Depressão Maior, que é caracterizada pelo impedimento quase total, quando não pleno, do paciente, que interrompe suas atividades e relacionamentos normais, tem alteração do padrão de sono e do apetite, perda da libido, ou seja, a perda do prazer de viver. Outro tipo comum de manifestação é a Distimia, que é um quadro arrastado de Depressão, ou seja, o paciente tem humor deprimido, irritado, que se arrasta por anos, afetando também seu sono e o prazer de viver.           Outros tipos de Depressão também importantes são a Depressão Psicótica, onde a doença se confunde com outros transtornos mentais pela presença de delírios e alucinações, ou seja, além da depressão o paciente apresenta medo patológico, descreve que ouve vozes ou relata como real um fato que não ocorreu senão em sua mente. E também a Depressão Pós-Parto, que ocorre após o parto, ou mesmo durante a gestação.
            Várias doenças orgânicas podem desencadear Depressão, que se torna secundária, ou decorrente dessas doenças. Entre as doenças que podem provocar Depressão, as mais frequentes são todos os tipos de câncer, diabetes, AIDS, Hipotireoidismo, Doença de Parkinson, doenças cardíacas como Insuficiência Cardíaca e doenças pulmonares crônicas, como o Enfisema e a Asma.
            A doença tem um custo elevado. Estima-se custo anual de 83 bilhões de dólares nos Estados Unidos e 113 bilhões de euros, na Comunidade Européia. No Brasil, os custos não são menores pois a incidência de Depressão entre brasileiros é equivalente à incidência no restante do mundo.
            Outro custo da Depressão não tem preço, é a incidência aumentada de suicídio entre as pessoas com Depressão de todos os tipos e formas. Karl Heirich Fierz, psiquiatra suíço (Fierz, K.H., Psiquiatria Junguiana, 1997, Editora Paulus), afirma que o suicídio, ou sua tentativa, pelo paciente com Depressão deve ser entendida como o desejo de renascimento, como o mito da fênix, a ave egípcia que mergulha no fogo e renasce das cinzas.
            Quando olhamos o risco de suicídio por grupos de faixa etária de pacientes com Depressão, o grupo de maior risco é o dos idosos, com idade superior aos 80 anos e não o grupo de pacientes adultos jovens. Outro grupo de pacientes que merece atenção é o grupo mais jovem, dos adolescentes, onde o risco de suicídio também é considerável.
            Finalmente chego ao que me proponho neste texto, o que a abordagem médico-espírita tem a oferecer ao tratamento complementar da Depressão. Na questão 943 de O Livro dos Espíritos (Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, ed, FEB), o desgosto pela vida é analisado como causado por três grandes fatores, a ociosidade, a falta de fé e a saciedade.
            A finalidade de todo trabalho, toda atividade do homem, deve ser o benefício para si próprio mas também deve beneficiar seu próximo, assim alcançando a sociedade. Todo trabalho que visa somente a si mesmo, é considerado trabalho inútil e como uma ociosidade, segundo a interpretação espírita das leis divinas. Mais que isso, o trabalho deve ter uma finalidade útil e ser realizado conforme a aptidão de cada um. Desenvolver as aptidões naturais da pessoa, envolve-la no desempenho dessas aptidões para o benefício do próximo e de si mesmo é um dos pontos que devem ser considerados no tratamento da Depressão.
            Marino viveu na Argentina até os 21 anos, quando mudou-se para o Brasil e fez carreira como pintor de imóveis. Aos 42 anos entrou em crise depressiva grave, iniciou tratamento e, nas consultas médicas, declarou que sempre trabalhou para seu sustento e de sua família mas nunca fez o que gostava, o que realmente seu espírito pedia, que era cozinhar. Estimulado a exercer a atividade ao menos uma vez por semana, integrou-se em um grupo que serve alimentos aos moradores de rua, sendo o responsável pela cozinha das atividades dos sábados. A resposta ao tratamento da Depressão foi extremamente positiva após Marino doar algumas horas como cozinheiro em auxílio a pessoas carentes.
            A falta de fé não se expressa na ausência de religiosidade. Falta de fé começa por perder-se a fé em si mesmo, em se desencorajar de viver. Nasce geralmente da perda de algo valioso, na infância ou em vidas passadas, que é evocado por um episódio simbolicamente equivalente, quando da manifestação da Depressão.
            Paula tinha 7 anos quando sua mãe pulou da janela do apartamento, localizado no 6º andar do edifício. Aos 20 anos apresentou quadro de Depressão Maior, de difícil tratamento. Não saía de casa, recusava-se aprender a dirigir por sentir-se incapaz e pensava em abandonar a faculdade. Com muita resistência, conseguiu relatar à sua terapeuta a morte de sua mãe e o que realmente sentiu. Foram momentos de muita dor. Após 12 semanas já conseguia sair de casa para atividades prazerosas, como ir ao cinema. Passou a acreditar mais em si mesma e matriculou-se em auto-escola. Continuou seu curso na faculdade.
            Saciedade é a perda da sede de viver, a perda dos motivos que nos mantém vivos por considerarmos que já nos saciamos de todos eles. Paradoxalmente, a saciedade nos leva a uma situação de busca contínua de algo diferente, algo que nos motive. É decorrente do materialismo, que impede o homem de enxergar além da realidade imediata.
            Eudes convenceu-se de procurar o médico após insistente pedido de sua esposa. Foi realizado diagnóstico de Distimia e iniciado tratamento mas uma peculiaridade chamou a atenção na consulta, Eudes tinha necessidade de comprar compulsivamente, para encontrar algo que o fizesse descobrir motivo para viver, mas a cada compra sentia-se como aquela sensação de ter comido em exagero e continuar buscando algo diferente para dar um novo gosto na boca. Estava endividado e não teve outra solução senão vender um dos carros da casa. Isso o fez acompanhar sua esposa em uma atividade voluntária semanal, onde servia como voluntária em um hospital pediátrico. Em menos de um mês Eudes integrou-se com o grupo e experimentou satisfação em estar vivo.
            Depressão é uma doença, deve ser tratada sempre, jamais deve ser considerada uma doença de fundo moral. Tentar entendê-la em uma abordagem ampla, como a oferecida pelo modelo médico-espírita, é abrir novas possibilidades ao tratamento complementar dessa grave doença.

A vida que vai além da vida


O último paciente do dia que se tornara quase noite entrou no consultório com passos curtos e respiração abreviada pela dispnéia. Tinha o abdômen bastante volumoso pelo líquido que extravasou dos vasos, tornando a cavidade um repositório chamado de ascite. Em fase terminal de câncer, ainda tinha o cuidado de cuidar de outros problemas de saúde, entre eles a disfunção da tireóide.
Como se fosse inevitável para o momento e situação surgiu a pergunta fatal _ “O que a Medicina tem a dizer do momento da morte, devo  me preparar para o nada?” Não perguntava a opinião do médico, eivada das crenças e convicções pessoais, mas a visão da ciência chamada por Hipócrates de Arte de Curar.
Uma década se passou desde a publicação do artigo do Dr. Pin Van Lommel pela prestigiosa revista médica inglesa The Lancet, o qual estudou a prevalência e as consequências da Experiência de Quase-Morte após parada cardíaca, sobre uma população de 10 hospitais da Holanda.
Experiência de Quase-Morte? Foi com assombro de desconhecimento que essa pergunta me foi endereçada por um médico residente, em uma conversa informal sobre o trabalho do Dr. Van Lommel. Experiência de Quase-Morte foi o termo utilizado para descrever lembranças que retornam à mente de pessoas que passaram por situações extremas, entre elas afogamentos, acidentes graves, hipotermia e parada cardíaca. A Experiência de Quase-Morte surge de modo espontâneo nessas situações e, o que é interessante, é que as pessoas que passaram por tal condição descrevem um quadro muito parecido _ sentem-se fora do corpo, alguns são capazes de enxergar o próprio corpo, depois são conduzidos a um túnel escuro , por onde caminham, até encontrarem uma luz brilhante, onde sentem uma espécie de expansão da consciência e encontram familiares, pessoas queridas, alguns descrevem a presença de anjos ou seres celestiais. Repentinamente são convidados, ou induzidos, ou forçados a voltar ao corpo, onde acordam da morte.
O mais impressionante da Experiência de Quase-Morte, que vou passar a chamar agora de EQM, é que a imensa maioria dos que por ela passaram tem a sua vida profundamente modificada, porque os valores de antes são substituídos por outros, com marcante devoção à vida e às conquistas subjetivas, como felicidade e bem estar de si e do próximo.
Os cientistas que estudam a EQM tendem a justifica-la pela anoxia cerebral, ou falta de circulação cerebral no momento da experiência. Na visão dos que defendem tal postulação, a anoxia cerebral seria responsável pela ocorrência quase uniforme de manifestações, como a entrada no túnel e o enxergar as luzes.
Nos casos estudados pela equipe do Dr. Van Lommel, 61 ao todo, a EQM ocorreu quando o coração parou de bater, ou seja, havia morte clínica, o cérebro não poderia registrar mais nada, tecnicamente falando.
Além do argumento que o paciente estava morto no momento da EQM, fatos curiosos cercaram os relatos de vários pacientes do Dr. Van Lommel. Em um deles, a dentadura de um paciente foi retirada de sua boca quando o monitor cardíaco fez soar o alarme que o coração havia parado. Dois dias após ter sido ressuscitado, o paciente pediu de volta a dentadura, causando certo constrangimento à equipe de enfermagem que julgava te-la perdido. Eis que o paciente então avisa à enfermeira responsável que quando retiraram a sua dentadura para colocarem o tubo oro-traqueal, uma outra enfermeira, que usava óculos e era de estatura baixa, havia retirado sua dentadura, embrulhado com gaze e guardado na gaveta de determinado armário. Para espanto de todos, a dentadura foi encontrada no local indicado e a citada enfermeira confirmou que, aos cinco minutos de parada cardíaca, antes da entubação, retirou os dentes do paciente e os guardou.
Outro caso inusitado foi o de outro paciente que, horas depois de retornar da parada cardíaca pergunta ansioso pela adolescente que fora atropelada na porta do hospital e para a Emergência conduzida. Eis que realmente houve atropelamento e uma adolescente dera entrada no serviço de Trauma do hospital, mas o horário de ocorrência era exatamente o mesmo em que o paciente estava clinicamente morto e recebendo assistência médica.
O que o Dr. Lommel questiona ao final de seu artigo é a impossibilidade de localizar a consciência no cérebro. A EQM é uma prova inconteste que o cérebro é instrumento da consciência e não sua sede.
A Medicina ainda interroga casos como os de EQM, tentando encontrar uma resposta no cérebro, argumentos esses muito pequenos para explicar a multiplicidade de fatos que ocorrem quando o paciente está clinicamente morto. Mas ainda a Medicina se contorce para não assumir que todas as evidências que a EQM oferece devem dizer ao paciente próximo à morte que, ao atravessar a fronteira da vida no corpo, uma nova forma de vida acontece, a vida que vai além da vida.
Se você passou por Experiência de Quase Morte, não hesite em me enviar um email.
 
Yoomp