
Imagino que Isabella não clamou por justiça como motivo para seu descanso, mas apenas imagino. Os mortos falam quando querem, de várias formas, não apenas através de médiuns, mas também nos sonhos, intuições, lembranças. Isabella teria falado de algum modo com alguém clamando justiça?
Os jornais e revistas assinalaram que a menina gostava da companhia do pai, sentia sua falta. Não se sabe se Alexandre a espancava, se tinha arroubos de impulsividade, beirando a insanidade, comportamento que a psiquiatria batizou de acting para descrever a ação impulsiva, impensada, danosa, que algumas pessoas que não conheceram limites apresentam como cartão de identidade. E onde chegam provocam o temor de um barril de pólvora que explodirá em minutos, e sempre explode. Alexandre a espancava, seus actings se voltavam contra a filha? Não imagino, nem ao menos imagino.
O que tenho certeza é que Isabella não é mártir, como quer boa parte da mídia, como querem os sensacionalistas de todas as horas. Foi mais uma menina ingênua, inocente, que sentiu a voracidade de uma madrasta que se revelou cruel, de um pai fraco e covarde. A morte de Isabella e a condenação de seus assassinos não retira o mal de perto de nós.
A oração dominical se encerra com a sentença em que pedimos que não sejamos entregues solitariamente à tentação e mais, que sejamos livres do mal. No encadeamento da súplica, o libertar-se da tentação e do mal não vem do elemento exterior, porque é conseqüência de um ato interno de perdoar, “perdoai as nossas ofensas, assim como perdoamos a quem nos tem ofendido”. O pedir perdão na medida da capacidade de perdoar antecede a revelação de Jesus sobre a origem do mal dentro do homem, “e não nos deixei cair em tentação, mas livrai-nos do mal”.
Figuras como Nardoni e Jatobá não se fazem originais. Contam-se aos montes, como a mãe que permitiu o abuso e morte do filho de pouco mais de um ano de idade pelo padrasto perverso, talvez repetindo a perversão da outra mãe, que viu o filho morrer de fome e se comprazer com isso. As duas alegaram ignorância, buscaram a chancela da miséria, a justificativa da ausência de oportunidades, e poderiam arrolar vários outros motivos, mas apenas como enfeite da crueldade que escondiam, da incapacidade de proteger os filhos e, pior, usariam desses e todos os motivos para adornarem o banquete de devoradoras de crias. O que mais me assusta é que a distância que vivo dessas mães é de apenas uma viagem a Goiânia ou pouco mais longe, mas dentro de Goiás.
A sociedade não teve tempo para descansar em paz. Jamais deixa de criar enredos de prisão e tormenta. A virtualidade que rege as relações à distância é a realidade de uma linguagem binária dos computadores. Imagens belíssimas são criadas para jamais serem concretizadas ou alcançadas, porque apenas são o código de informação de um computador. E mesmo assim a virtualidade excita, vicia, aprisiona.
O sexismo que invade as relações virtuais é outra forte algema, que entorpece os sentidos e exige compensações enormes, comportamentos aberrantes, bizarros, para aplacar desejos que surgiram de sensações, de afeto sem origem em sentimentos.
A banalização da violência, amplificada pelo entorpecimento da razão, mata-se como em um jogo. No jogo em que os dados rolados decidem vidas humanas, um mendigo é apenas algo encontrado na rua, seus trapos logo viram chamas e nem os gritos de dor do suplício pelo fogo desperta os perversos que se comprazem nas orgias de droga e sangue.
Páscoa é libertação. Senhor, livrai-nos do mal, amém!



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