“Chá, compre-me apenas chá, de qualquer marca, mas de sabor exótico, diferente dos que encontramos por aqui”. Era uma encomenda simples, a princípio de valor irrisório para alguém que em menos de um dia viajaria para o exterior longínquo e deixaria para trás o amigo preterido. Apenas uma vaga surgiu para a empresa, mas a vaga tinha nome, escolhido diretamente pelos patrocinadores.
Estevão mostrava humildade ao reagir apenas com a cara fechada quando soube da definição, um mês antes da viagem. “Essa viagem era minha, mas já que não me quiseram o que posso fazer?” Foi o que me disse no dia em que o email chegou. Fez questão de me ligar para cumprimentar e dar recomendações sobre Pequim. “Tem dois anos que estudo a cidade, conheço tudo o que escreveram sobre a capital da China”.
Não mais tocou no assunto, nada falou nas semanas seguintes, na verdade me evitou a todo custo e foi burocrático quando me encontrou, logo conseguindo uma chamada telefônica inadiável que tinha que ser atendida a qualquer custo.
Comprei um sobretudo pesado, disse a ele uma semana antes do embarque, em raro momento de maior atenção. “Overcoat, esse é o nome. Evite os escuros mas não use cores vivas, prefira cinza claro. Comprou um preto? Então não necessitava de minha ajuda. Boa viagem.”
Overcoat. Soube que Estevão havia comprado um sobretudo Armani em São Paulo. Pagou a bagatela de três mil reais, mas justificava dizendo que valeria cada tostão, o frio de Pequim pagaria cada centavo. E o meu foi comprado em um brechó de porta única e mal iluminado. A vendedora era quase cega de tão caolha, mas era boa vendedora porque me vendeu por um décimo do preço um sobretudo encardido e sem botões; uma semana de intensa procura para achá-los no tamanho e cor ideais.
Tenho luvas antigas, de lã, disse também a ele naquele dia. O colega olhou-me com desdém, não usava luvas, exceto se fossem de couro, mas eu deveria saber o que era melhor para mim. Deveria mesmo, as luvas de tão antigas rasgaram quando fui experimentar novamente, abrindo buracos cujos reparos me custariam um novo par.
A programação para a viagem era de uma semana corrida, mas foram gastos dois dias para chegar e outros dois dias levariam para retornar. A escala era em Frankfurt, tanto na ida quanto na volta e na cidade alemã descansaria dez horas em cada etapa da viagem. O resultado é que teria três dias na cidade chinesa, sendo que dois dias seriam ocupados pelo evento. O total efetivo que me sobraria, um dia. O primeiro dia.
A encomenda de Estevão seria buscada nas poucas horas que teria entre a saída do hotel e o aeroporto. Já localizara o supermercado, comprar chás exóticos seria um passeio, tudo o que viesse de tão longe por si só seria exótico. Naquela manhã abri email de Estevão reforçando o pedido, queria chás exóticos e reforçava que não era de jasmim, preto, bergamota, hibisco. Terminava a correspondência eletrônica reforçando que contava com o amigo que aliviaria a frustração de quem se preparou para viajar e fora preterido.
Uma das malícias que a vida me ensinou foi perceber a chantagem e não cair em armadilhas. Estevão estava se vingando sua raiva por não ter sido o escolhido, em minha boa disposição e vontade. Eu não encontraria um chá exótico em supermercado algum e realmente o que vi foi um desfile de chás conhecidos nas prateleiras de nossos supermercados e nas estantes de lojas da Europa, muito freqüentadas pelo amigo. Um funcionário do mercado se esforçou para me entender e o máximo que me vendeu foi um chá que misturava mel, jasmim e canela, era o mais exótico para ele.
Com o chá em mãos, coloquei-o na bagagem de mão e segui o conselho de um taxista português. “Nada é mais exótico em China que o tabaco dos cigarros que vendem aqui. Antigamente eram distribuídos, na época do comunismo rigoroso, agora são vendidos a preço de banana”. Carteira de cigarros comprada, faltou apenas uma caixa, onde a mistura do tabaco ao chá daria ar de imponência.
No ônibus de volta, um colega do Rio Grande do Sul deu risadas e provocou espanto ao mostrar uma caixa de camisinhas decorada com mandalas chinesas. Era uma caixa de plástico, mas com aparência de madeira e a pintura parecia entalhes. “Bá! Se acha em qualquer farmácia aqui, até mesmo no aeroporto!”.
Peço apenas que não me convidem para junto com Estevão tomar um chá exótico da China, que vem em uma caixa belíssima, tem o aroma forte de misturas incomuns e gosto um tanto amargo de tabaco ordinário.
sábado, 10 de abril de 2010
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