terça-feira, 15 de junho de 2010

A Difícil Tarefa de Comprar Tomates

Tomates, nem maduros demais e nem tão duros. No ponto para a confecção de um molho especial com gosto italiano. Essa a missão que assumi ao descer apressadamente ao supermercado após os outros ingredientes do afamado molho terem sido cuidadosamente selecionados no armário-dispensa de minha pequena cozinha. Uma macarronada com molho especial, aprendido há muitos anos, na casa de meu amigo Bertero, em São Paulo.
Sábados ao quase final da tarde nem sempre é um bom momento para supermercados. Todos resolvem solucionar seus problemas de casa e cozinha no momento que antecede o crepúsculo, como se o por do sol tivesse o poder mágico de reduzir os preços ou provocar insanidade nos gerentes dos supermercados a ponto de ofertarem gratuitamente os produtos das gôndolas.
E no supermercado cheio, com a pressa a marcar meus passos, eis que me deparo ante a pia de tomates do tipo salada, pronto para escolher os que melhor caíssem nos meus critérios de seleção. Mal começo palpar a fruta para sentir o seu ponto e eis que minha atenção é roubada por um tipo exibicionista, que entra cantando performaticamente supermercado adentro, como se nós, os apressados clientes fossemos seu público cativo.
A melodia desafinada vinha em um péssimo inglês e só esse atentado à língua anglo-saxã já seria motivo para que os seguranças o retirassem dali, sem contar que seus trajes inoportunos, um homem magro usando tamancos de salto altíssimo, lenço no pescoço e óculos de sol enormes compunham um tipo bizarro. Nada contra a bizarrice de um personagem, tudo contra a música que saía excessivamente alta e desafinada. O pior é que em sua performance, ele apontava o dedo em minha direção, me destacando em meio à pequena multidão.
Não sei se ouviram minhas preces ou a ordem do dono do estabelecimento, mas em pouco tempo, antes mesmo de completar I Will Survive quase pulando em meu pescoço, o esdrúxulo cantor deixou o recinto. Alívio para um atrasado comprador de pequena quantidade de tomates. Poderia retomar a devida concentração para a escolha do principal componente do molho carbonara.
Mais uma pequena pressão com os dedos e alguns tomates no saco e novamente a minha atenção é arremessada por uma dupla barulhenta que cega dos outros, me empurram de onde estou sem perceberem minha veemente reclamação.
Duas mulheres, uma bem mais velha que outra, discutiam sobre o que realmente faltava em casa. A que parecia ser a mãe, desqualificava sua filha a cada sugestão e cada negativa da mãe vinha acompanhada com agressões verbais sugestivas da limitada capacidade mental da filha.
A resposta da outra não tardava, sempre no mesmo tom alto de voz que a mãe empregava, e por ela fiquei sabendo que ninguém na casa aguentava mais a incontinência urinária da genitora, sem qualquer percepção do local onde se encontrava, para delírio dos presentes, todos ficamos sabendo que na casa delas havia calcinhas dependuradas por toda a sala e pelos quartos, que uma risada ou ranhetice, até mesmo pequeníssima tosse e um cheiro forte de urina roubava a cena e o perfume da mãe.
A senhora quase idosa não se fez de rogada, além de pedir respeito, me puxou pelo ombro e gritou a todos, como se estivesse falando comigo, que a filha também tinha seus problemas, o mais grave deles era a voz de seu estômago após cada refeição, enchendo de barulhos e cheiros a mesa e a sala.
Tentei rapidamente sair, estava além de minha hora, puxei meu ombro de volta, deixei qualquer análise das cenas para um momento futuro, busquei o caixa. Mas qual não foi minha surpresa ao deparar com meu vizinho com cabelos arrepiados para o alto, como se tivesse tomado choque elétrico, camisa social, bermuda de corrida e chinelos. Disfarçadamente cumprimentei-o e um grito assustador foi a resposta, seguida de proclamações religiosas.
Quando a moça do caixa me convidou para pagar meus tomates, depositei-os na caixa de devolução e resolvi comer um bife.

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