terça-feira, 15 de junho de 2010

A mesa do restaurante não é mesa de meu consultório!


Rememorando cenas de meu cotidiano, voltei a Brasília, pouco mais de um ano atrás, mais precisamente de uma cena em um restaurante, onde já ansioso pela fome devoradora, esperava meu prato . Tentava me dessedentar às custas de Coca Zero, enquanto me permitia olhar o gelo em lento processo de liquefação.
            Poucos segundos e meu olhar curioso se deteve no casal que chegava com uma criança carregada no colo do pai, acompanhados por uma babá que trazia sacolas e a incumbência da escolha da mesa. A mãe se movimentava rapidamente, demonstrando irritação, ao mesmo tempo que observava o marido com o filho e a babá com as sacolas.
            O foco de meu olhar se deteve sobre a criança. Era uma fácies sindrômica, ou um rosto que aparentava uma alteração rara. O bebê apresentava micrognatia (queixo pequeno), qual Noel Rosa, mas também tinha o nariz em sela, os olhos afastados um do outro e uma persistente hipotonia, seu corpo não encontrava a contração muscular do tronco e da coluna para se sustentar. Dormia um sono pesado.             Mentalmente comecei a descrever postulações sobre a possível síndrome, num processo chamado de repertorização, onde as anomalias são descritas em conjunto para descartar a probabilide de uma doença genética. Discretamente observei as características da mãe, o tipo de rosto, a característica do nariz, o posicionamento dos olhos e das orelhas. Qual investigador, fazia mentalmente a repertorização daquela doença e imaginava as condutas a serem tomadas.
            Diante de uma mãe normal, imediatamente me detive no pai, que segurava a criança, embalando-a com extremo amor, acalentando seu sono e repetindo a cada instante "filhinho lindo do papai"!  
            Naquele me dei conta que mesa de restaurante não é a minha mesa de consultório, que as pessoas não são conhecidas pelos prontuários médicos, que os sentimentos não se detém em formas, contornos, características físicas.
            Tomado de emoção, até me esqueci do outro casal que estava em frente à minha mesa e que se comunicava um com o outro através do celular, sem que nenhuma palavra fosse dirigida ao outro diretamente, sempre com a intermediação de um aparelho. Também me esqueci do agitado homem que me assustou quando, de pé ao meu lado, falou de modo tão ríspido com seu pai que todo o restaurante protestou indignado, a voz alterada do homem foi maior que o barulho do restaurante.
Apenas uma cena que se repetia docemente, que me fez mentalmente dizer: "Filhinho lindo do papai, não sei seu nome, mas sei que é amado!"

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