M., sexo feminino, 27 anos, casada, dois filhos. Trabalha como secretária em clínica médica, foi trazida ao Grupo das Terças, equipe de desobsessão do Sanatório Espírita de Anápolis, por seu empregador, médico, cirurgião plástico, espírita. Relatava história de início súbito, há menos de dois meses, quando passou a não apenas perceber vultos como perder o controle de si e “ser tomada”pelo espírito de uma prima desencarnada. Durante todos os dias de trabalho, nos últimos dois meses, seu patrão esteve mobilizado em auxiliá-la, não se detendo inclusive em abandonar o consultório para tentar socorro em casas espíritas que mantinham atendimento durante o horário comercial.
Em nosso grupo, quando diante dos médiuns, ao início do passe, logo modificava sua voz, contorcia os membros superiores e falava de modo aflito, por vezes agressivo, discurso de poucas palavras, que se resumiam em “Eu vou matá-la, vou trazê-la para cá”. Observei detidamente seu biótipo, seus movimentos corporais, seu discurso quando “incorporada”. Ao final da reunião, seu rosto era suave mas seu olhar não escondia a sensação de prazer realizado.
Ao ser questionado pelo colega médico e patrão de M. sobre o caso por ele considerado como mediunidade ostensiva, recomendei o uso de ansiolíticos e psicoterapia. Confirmei com ele a impressão inicial que M. estava com problemas conjugais sérios. Troquei o diagnóstico de mediunidade pelo de Manifestações Somatoformes, porque o termo Histeria soou agressivo a M.
Na análise com o grupo, do caso de M. realcei os seguintes pontos que me indicaram o diagnóstico que fiz do caso a nós apresentado:
· M. iniciou suas supostas manifestações mediúnicas de modo súbito mas no ambiente de trabalho, onde o patrão era espírita;
· Estava com problemas conjugais sérios, sem apoio de sua família de origem para resolvê-los;
· Em cada manifestação tida como mediúnica, recebia total atenção do patrão, que se estendia para além do horário de trabalho;
· M. deu passividade apenas quando estava sozinha na sala de passes; sua manifestação se iniciou com movimentos de contorção do braço esquerdo, hiperpnéia, voz inicialmente gutural e poucas palavras. Não havia discurso lógico na passividade mediúnica, não haviam elementos para identificação de uma personalidade, mas fragmentos de discurso sem espontaneidade.
· Havia verdadeiro prazer por parte dela ao final do passe, como se agradasse ao patrão.
As manifestações chamadas anteriormente de histéricas, atualmente agrupadas na classe das manifestações somatoformes, ainda confundem grupos mediúnicos, porque podem ocorrer em pessoas que inconscientemente buscam um ganho pessoal ante várias frustrações, bem como podem também estar presentes em casos de obsessão espiritual.
A casuística do Grupo das Terças, em casos de histeria, nos últimos dez anos, se deu apenas com casos a nós encaminhados como Obsessão ou “Mediunidade”.
Foram 4 casos de pessoas da comunidade, 2 de pacientes internados no Hospital Espírita de Psiquiatria. A distribuição entre os sexos foi 5 casos de mulheres e 1 caso de homem.
O caso masculino era de paciente com diagnóstico de Esquizofrenia Paranóide, internado para tratamento; os casos femininos não tinham diagnóstico psiquiátrico, exceto um caso de Dependência Química.
Dos casos da comunidade, todos eles iniciaram após sensação de perda, real ou imaginária, em 3 deles havia a suposta manifestação de um parente morto que queria levar sua vítima, mas sem que houvesse manifestação plena ou uma personalidade pudesse ser identificada. Em 1 caso, a manifestação era teatral, onde a pessoa relatava o que supostamente via no plano espiritual.
Dos casos da comunidade, apenas o que relatava visões do plano espiritual se engajou no movimento espírita e hoje trabalha como médium passista em uma casa.
Como conclusão, a histeria é diagnóstico infreqüente em nosso grupo, por trabalhar dentro de Hospital especializado. É manifestação incomum de mediunidade, suas manifestações são seguidas de ganho pessoal do sujeito, quer pela satisfação em poder agradar, quer pela mobilização que consegue atingir.



Nenhum comentário:
Postar um comentário