domingo, 1 de fevereiro de 2009

Mamo, o psicopata


Ele tinha trejeitos, com certeza os tinha e Mamo podia imaginá-los todos só de ouvir pelo rádio jeito que falava cada palavra, acentuando em excesso as paroxítonas, abrindo demais as sílabas tônicas com a vogal o. A certeza crescia com a raiva que passou a nutrir. Em poucos minutos já sabia quem era, sua ocupação, a empresa onde trabalhava. Engenheiro, responsável pelo acompanhamento de novas tecnologias. A entrevista continuava, mas a cabeça de Mamo já estava longe.
O domingo trouxe o sol em sua manhã de verão. Já se passava das nove. Nos trópicos o calor não espera o meio do dia para se manifestar, no meio da manhã algumas pessoas já tiram a camisa buscando alívio. Naquela manhã, Mamo estava sem camisa até ligar o rádio. A raiva cortou seu suor, vestiu a camisa e agora já não era tomado por outro pensamento senão o de higienizar o mundo. Era essa sua missão, era esse o seu destino.
Mamo me descreveu sua história e contou sobre seu crime não com a frieza do psicopata, mas com o fervor do crente que é chamado para uma missão.
Não conheci sua vítima, mas foi apenas mais uma entre pelo menos treze. Foi o que o policial me disse. E eu estava diante de um homem frio, assassino cruel, que tinha predileção por homossexuais. Ao contrário de outros criminosos, não mantinha relação com suas vítimas, nem as atraía para algum lugar para executa-las, mas dizia cumprir a ordem dos anjos. Ia até a casa, executava geralmente com arma de fogo e saía tranquilo,como se nada tivesse acontecido.
Mamo estava na minha frente, eu nada tinha a temer, mas seus olhos brilharam a ponto de quase iluminar o pronto socorro onde eu, quartanista de Medicina, estagiava. Acabara de entrar Renato, um técnico de enfermagem falante, que acentuava em excesso as paroxítonas e abria demais as sílabas tônicas com a vogal o.

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Yoomp