
Tinha 15 anos e viera ao consultório acompanhado da avó paterna, uma senhora nos seus sessenta, de vigor e aparentando saúde radiante, o que contribuía para a construção de uma imagem inicial de mulher decidida e avó um tanto brava.
Logo de cara o paciente foi ordenado para esperar na sala enquanto a avó trocasse duas palavras com o médico.
E as duas palavras daquela senhora que tomariam toda a consulta eram a narrativa da vida de um neto, criado dela apartado e distante, por abandono do pai, que se aventurou no mundo em desfavor de sua família. Criado pela mãe e pelas tias, sem interesse também da avó agora responsável, repentinamente se viu sem mãe e sem tias, um acidente dizimou as vidas das que o criaram e o sustentavam. Alguém se lembrou de avisar ao pai que o filho estava sozinho em uma casa alugada, sem família. A avó paterna assumiu o lugar do filho, trouxe para junto dela havia dois meses e se preocupava com os hormônios do rapaz.
Quando alguém no consultório se preocupa com os hormônios de adolescentes já mato a charada _ homossexualismo, que na cabeça das pessoas é doença hormonal. Até que explique que em nada se relaciona com hormônios e nem mesmo é doença, uma hora se vai fácil.
A avó começou a ladainha de queixas contra a mãe morta de seu neto e contra o filho de paternidade irresponsável e pouco após esse momento foi interrompida pelo paciente que entrou na sala antes que chamado fosse, em extrema lucidez e tranquilidade, e disse à avó, "minha senhora, minha mãe não criou um maricas, não me ensinou trejeitos, antes disso, desde sempre me estimulou a estudar, a respeitar o próximo, a não julgar. Sua preocupação com minha sexualidade é desnecessária". E falando isso, gentilmente ajudou a avó a se levantar, agradeceu a consulta, me disse ter feito exames de rotina recentemente. Beijou o rosto da avó com extremo carinho e saiu.
Antes que o próximo paciente entrasse, ainda sem qualquer conclusão, pois o rapaz foi de uma firmeza sem igual, a secretária entrou em minha sala indignada porque o paciente, que estudava no mesmo colégio de seu filho, havia dito que o achava lindo!



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