
Ela vinha pela primeira vez a um endocrinologista e a consulta havia gerado expectativas. Era também novidade o cartão da UNIMED. Um misto de encanto, ansiedade e constrangimento fez da primeira consulta um prato cheio de análise e o tempo não me deteve a necessidade de conhecer mais a fundo a paciente.
Pensamentos recorrentes e obsessivos com faca, medo de manipular o instrumento cortante de cozinha perto de seus filhos e de seu esposo, medo de não se controlar com uma faca na mão. Esse tipo de pensamento, quando recorrente e constrangedor, indica a possibilidade de um transtorno obsessivo-compulsivo, o chamado TOC. Iniciamos o tratamento com dieta e Fluoxetina,
Após oito semanas de tratamento, mais três visitas e oito quilos menos, ela demonstrou preocupação maior _ agora não apenas pensamentos, mas sonhos recorrentes a incomodavam. E contou a história de sua infância, do pai que torturava os filhos cada madrugada, quando chegava bêbado em casa, com uma faca afiada no pescoço de cada um. Foram anos sofrendo diariamente essa hediondez.
Passara a sonhar com o pai, os pensamentos obsessivos mais que recorrentes, fez com que esconde-se as facas mais cortantes. Dois dias antes da visita, fora à casa do irmão, que à época do pai era bebê quase de colo e era por ela protegido quando das loucuras diárias do pai, mas não a ponto de um dia sofrer um risco da lâmina assassina no pescoço. Aquilo lhe fez mal. Encontrou a casa do irmão quase vazia, a esposa o abandonara com os filhos e no quarto do casal separado desenhos de facas e caveiras em todas as paredes.
Encaminhei Lúcia finalmente ao psiquiatra. Foram oito semanas tentando convencê-la. O colega que a atendeu substituiu a medicação por fluvoxetina, houve boa resposta.
Ontem, coisas do acaso, encontrei a antiga paciente em um supermercado escolhendo uma faca de cozinha Tramontina. Ao me ver, mais que sem-graça devolveu o produto à prateleira e me deixou na dúvida inquietante _ será que ela está curada? Leio a coluna policial da minha cidade. Até o momento, nenhum relato de crime envolvendo faca, mulher e sangue.



E a pergunta: será que o Psiquiatra (mesmo sendo de sua confiança) conseguira estabelecer uma aliança terapêutica com a paciente da mesma forma que você havia conseguido?
ResponderExcluirRafael, eu creio que não, porque a expectativa dela com o endocrinologista era algo positivo, o encaminhamento ao psiquiatra foi quase uma imposição, só favorecida pelo medo.
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